quinta-feira, 25 de junho de 2015
traída pelas lembranças
lembranças...
fui lá buscá-las, mas não as encontrei
no lugar das paredes azuis, encontrei uma laranja vivo
as salas pequenas, meio antigas, com pisos de madeira
agora são coloridas...amplas...barulhentas
cortinas de um abóbora vivo tingem a sala com uma luz vermelha, suspeita
encontrei mesas pequenas e grupos concentrados
muitos alunos andando com mochilas nas costas, pareciam em trânsito
não pareciam pertencer
não como nós pertencíamos
são novos desenhos que apagam os das minhas lembranças
mudaram a planta e não me consultaram
fecharam uns cantos de quintal
sumiram com um banco onde eu vivi meu amor eterno dos 12 anos
os muros que nós pintamos não está mais lá
o alambrado que pulamos sumiu
cobriram a entrada
abriram os portões que nos continham
está tudo diferente
esperava encontrar lá minhas lembranças
era a minha última esperança de refúgio do passado
guardei esse refúgio
nunca mais havia voltado lá
nem devia ter....
sábado, 20 de junho de 2015
especiarias da maturidade
agora meu andar é mais lento
é lendo
um passo ... outro passo ... mais um...
já não me cansam tantas corridas urgentes...e inúteis
é lendo
um passo ... outro passo ... mais um...
já não me cansam tantas corridas urgentes...e inúteis
menos café, e café com menos açúcar. café sem bolo
vida menos doce
o tempo que mostra a doçura de outros ingredientes...especiarias da maturidade
o sono é melhor. já não brigo
aceito. aceitação
acordar ainda é desafio
o consolo no desenho dos primeiros raios de Sol na parede vermelha
a vida vale seguir vivendo
meus textos têm menos virgulas e menos adjetivos, cada vez menos adjetivos
menos é mais, sempre
ninguém me critica pela falta do brinco ou perfume
mas não ouse colocar uma vírgula entre meu sujeito e meu predicado
advérbios seguem soltos, sem vírgulas...desafio diário
as maiúsculas sumiram...daqui, pelo menos
optei, estilo...especiarias da maturidade...
reticências em em pontos finais
mudou o escrito? sumiu o medo?
não sei. já não preciso...especiarias da maturidade
mudou o escrito? sumiu o medo?
não sei. já não preciso...especiarias da maturidade
metas ousadas...sem pressa
caminho. caminhar
hoje, menos peso
cabelos mais vermelhos...canela...especiarias
quero o que eu quero. hoje, sei o que é
o que eu quero e o que é bom pra mim
o que eu quero é o que é bom pra mim
sujeito, enfim!
bebo dos minutos e do voo dos tsurus....invejável rotina
gramática, por prática
literatura, por paixão....especiarias da maturidade
Onde está mesmo a nuvem que andava por aqui?
sexta-feira, 12 de junho de 2015
a autonomia do sorvete
em casa, bala era à vontade
pêssegos em calda e danone também
não eram luxo
era assim...todo dia tinha, simplesmente tinha
numa outra casa que frequentávamos, pêssego era luxo
e danone, não tinha
naquele tempo, eu não entendia o porquê, mas hoje entendo
em casa, não precisava pedir para comer bala
para tomar sorvete, precisava
sorvete era censurado
não racionado, mas censurado
o sorvete guardava os últimos resquícios da autoridade materna
eu, submissa, respeitava a censura
sempre, sempre que me dava vontade de sorvete
submetia meu desejo a instancias superiores
a resposta era sempre sim
e eu sempre consultava, mesmo assim
ainda lembro do gosto doce que teve meu primeiro sorvete subversivo
assim como clarice
que conheceu a eternidade através do chiclete
eu conheci a liberdade
através do sorvete
terça-feira, 2 de junho de 2015
momento presente
quero registrar este momento, assim, no presente.
esse momento presente. um presente de momento.
falo isso há alguns dias...e há alguns dias tenho medo que a paixão derreta entre meus dedos.
o dia a dia tem esse poder, inevitavelmente cruel, de derreter paixões.
tempos de adoçar o olhar. de olhar menos corporativo. de amar. de ser doce e mais tranquila.
será que consigo?
quero tentar, pois é aqui que quero estar.
essa sensação, que ainda me contém, de estar no lugar certo, de pertencer.
alguém já me disse isso aqui, no quintal que já é meu, pra minha alegria.
há alguns meses, quando passei pela primeira vez por aquele portão estreitinho, pensei: "tomara!"
o tomara aconteceu.
aqui estou...todos os dias...
ainda agradeço ao passar, todos os dias, por aquele portão estreitinho.
naquele tempo achei que não me cabia.
achei que não passaria.
respirei fundo, me apertei, revi minhas expectativas e defini: é lá que eu quero estar.
quando me chamaram, nem me surpreendi, de alguma forma eu sabia que o lugar me esperava.
talvez do lado de dentro, tenham demorado um pouquinho mais pra entender, mas o que importa é que entenderam, e hoje, estou aqui.
entre tsurus e livros pendurados em elásticos, entre textos e cartazes, entre ideias e olhares poéticos, entre sorrisos de crianças, entre sonhos de futuro, poesia e poesia.
salas brancas e grandes janelas verdes.
ateliers, arte e música.
potes coloridos
mãos carimbadas em paredes.
sonho estampado nas cortinas.
um ar, inacreditável, de passado que quer ser futuro.
com uma janela à minha esquerda, pela qual, passa gente sorridente o dia todo.
uma chefe que fala manso, que tem coração e sabe usá-lo.
uma nova cynthia. redescobrindo-se...todo dia!
Com o tempo, você acaba se acostumando.....
A acordar antes do sol
Ao ônibus lotado
À comida meio fria
À roupa meio colada
Ao pouco amor
Aos óculos na ponta do nariz
À distância segura
À conveniência do silêncio e da pouca luz`
À não respostas
A fazer menos perguntas
A andar rápido
A andar devagar
A não andar
A dormir pouco
A desfrutar da insônia
A evitar carboidrato
A resistir a paçocas e a clichés
A beijar pouco a filha
A ler menos do que gostaria
A desconfiar da poesia
A viver mais do dia a dia
A comer a carne mal passada
A andar nas mesmas ruas
A nova ortografia
A deixar o passado passar
A deixar o futuro acontecer
A precisar de menos
A querer demais
Ao café sem açúcar
Com o tempo, você acaba se acostumando....
Que pessoas magoam muito
Que poucas se desculpam
A esquecer
A querer esquecer
Com a ideia de que você não é a melhor irmã
A melhor filha
A melhor mãe
A melhor jogadora de basquete
Que seu texto não é o melhor
Que você não é mais a miss primavera
Que seus olhos não são os mais azuis
À mediocridade confortável
À parte mais baixa do pódio
A viver à sombra dos holofotes
Com o tempo você acaba se acostumando....
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Silêncios
"O silêncio é a gente mesmo demais". (G.R.)
Quando eu era pequena, ficava curiosa quando eu via amigos, frente a folhas gigantes, fazendo desenhos minúsculos.
Uma vez, tentando ser um não eu, desenhei pequenininho.
Bem pequenininho. Sobrou um tantão de folha. Botei passarinho.
Só a silhueta, porque, como você bem sabe, odeio passarinhos.
Não vida também sou assim.
Tenho problemas com espaços vazios. Encho de passarinho.
Problema é que, dependendo do passarinho, faz um barulho danado...e caga.
Pior! Às vezes, tudo isso ao mesmo tempo.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
noite sem fim
há dias, dia-a-dia adia,
vida que voa, tão à toa...tão à toda...
tristes noites geladas
não é climático, é fatídico
a tartaruga ainda arfa e ainda faz todo sentido
poesia fria, triste e fatalmente noturna
a vida à toa, escura
noite de uma escuridão sem fim
mas tem fim a noite?
mas tem noite o fim?
a poesia da poesia à poesia
sem sentido de mim
faz sentido em mim
laços intensos
quadros inevitáveis?
temidos
distantes e recentes
laços amargos
noite sem fim.
vida que voa, tão à toa...tão à toda...
tristes noites geladas
não é climático, é fatídico
a tartaruga ainda arfa e ainda faz todo sentido
poesia fria, triste e fatalmente noturna
a vida à toa, escura
noite de uma escuridão sem fim
mas tem fim a noite?
mas tem noite o fim?
a poesia da poesia à poesia
sem sentido de mim
faz sentido em mim
laços intensos
quadros inevitáveis?
temidos
distantes e recentes
laços amargos
noite sem fim.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Eu não me canso de nada!
Ontem, no final da tarde chuvosa e do dia interminavelmente triste, alguém me disse: "você acaba cansando". Prontamente respondi: "Não, eu não me canso de nada."
A conversa acabou, mas o eco dessa revelação caminhou comigo sob a chuva. No silencio da rua escura, o barulho na minha cabeça era ensurdecedor. Era eu mesma querendo gritar algo pra mim. Era eu mesma fugindo pra não ouvir.
"Eu não me canso de nada."
Eu ouço as mesmas músicas que ouvia na adolescência. Coletâneas repetidas. Eventualmente, porém raramente, novos intérpretes por simples curiosidade, mas sempre as mesas melodias, as mesmas letras, as mesmas poesias. A mesma Água de Março fechando o verão. O mesmo Barquinho que vai e volta na voz miúda. O mesmo banquinho, o mesmo violão. A mesma Garota, hoje já idosa, desfilando pelas mesmas ruas de Ipanema. O mesmo amor que Não é eterno, posto que é chama, mas que é infinito enquanto dura. O mesmo Samba que ainda é uma forma de oração.
Eu moro no mesmo bairro desde que nasci. Ando nas mesmas calçadas, nas mesmas vielas. Passo sob as mesmas árvores. Frequento a mesma padaria. Enfrento a mesma ladeira com os mesmos paralelepípedos. Me deslumbro com o excesso de ofertas de novos títulos da mesma antiga banca de jornais. Encanto-me com as poucas fachadas que sobreviveram aos novos moradores. Respiro a nostalgia que dá perfume ao bairro de imigrantes. Já conheço poucos rostos. Pouquíssimos rostos ainda me conhecem. Hoje os carros na avenida são bem mais velozes, mas hoje andamos bem mais devagar.
Os meus amigos me viram crescer. Viram a menina séria e dedicada transformar-se em alguém que cobra da vida poucas certezas. A menina de ontem, já não é a melhor da classe, nem a mais popular ou a mais bonita. Já não é rainha da primavera. Ainda falamos da mesma escola, que agora tem o muro enfeitado com caquinhos de mosaico e nova proposta pedagógica. Relembramos os mesmos professores, contamos as mesmas histórias. Conhecemos os pais, irmãos, casas, hábitos. Conhecemos as histórias de vida. Algumas fáceis, outras nem tanto. Os mesmos amigos, renovando risadas há 40 anos.
Ainda durmo com a mesma coberta que me cobria há 30 anos. Era novidade na época. Um substituto mais saudável aos cobertores que castigavam os alérgicos. Hoje ela está puída, já se pode ver através do tecido. A estampa esmaeceu. Parece que as folhas miúdas, que enfeitavam o marrom do fundo, caíram num inverno tardio. Toda noite a enrolo e coloco sob meu rosto. É inenarrável o prazer que isso me proporciona.
Numa estante moderna, peças antigas disputam espaço com modernos equipamentos. Um relógio que já marcava horários rígidos há quase 100 anos, agora tem máquina mais silenciosa. Os horários já não são tão rígidos. O relógio já não é tão preciso. Hoje ela é mais precioso que preciso. O rádio, que sempre ficou na cabeceira esquerda da cama da minha avó. Cama onde sentávamos e aprendíamos a bordar. Nunca aprendemos, mas gastamos intermináveis metros de fios coloridos. Eu amava aqueles novelos. Onde será que foram parar as miniaturas das peças de porcelana? Eu não me lembro de ter ouvido nada nesse rádio, mas lembro dele sempre ter estado lá. Um vidro de perfume. Cristal. Lindo. Vazio agora. Nem sei se um dia ele esteve realmente cheio. Uma sopeira, linda, florida com detalhes dourados. Não me lembro de ter tomado um prato sequer de sopa desta sopeira, mas a guardei como um gesto de carinho da madrinha tão querida. Um tesouro seu que tão carinhosamente passou às minhas mãos. Uma parte da sua história que, enfim, ligou-se à minha. O relógio com o cuco. O cuco não existe mais. Será que morreu? Fugiu? Hoje ele é silencioso e me observa. Talvez criticando meu tempo que passa. Meu tempo que passa sem sopa, sem música no rádio, sem cuco, sem cores nos novelos.
Quando eu nasci, meu pai me comprou uma boneca para a primogênita. Não era uma boneca simples, nem da Estrela a boneca era. Era uma boneca exótica. "Exótica", era um adjetivo que sempre me pareceu muito ousado para uma boneca. A boneca é vermelha, tem cabelos grisalhos. Ela sorri de olhos fechados e tem bochechas proeminentes. A boneca ainda existe. Eu ainda amo essa boneca. Hoje ela segura alguns livros da minha biblioteca. Por ser exótica, a deixo perto de Anais Nin. Elas se dão bem, acredito eu. A boneca continua sorrindo, nem rugas ela tem.
A casa da infância ainda é a mesma. Pouco mudou-se da disposição. A escada, de onde caí tantas vezes, ainda está no mesmo local. Ainda são doze degraus. Os muros ainda são altos. Eu cresci pouco, os muros continuam altos para minha estatura. O porão ainda existe. A sala ainda é gigante. A cozinha ainda é carinhosamente barulhenta e ainda cheira a café e rosquinhas. As xícaras ainda são de ágata. O piso do quarto da avó ainda é o mesmo. A avó já não dorme mais ali. O mesmo corredor interminável. As mesmas panelas, o mesmo mármore cor de rosa, um mesmo quartinho que mudou de função ao longo do tempo, a mesma tampa no quintal, o mesmo portão ligando as casas, as mesmas passagens secretas, os mesmos quadros, os mesmos porta retratos. As mesmas lembranças emolduradas pelas mesmas paredes.
A Dona Olívia ainda é a mesma. Uma delas é a mesma, a outra morreu há alguns anos. Ela já era idosa quando eu era criança. Pouco se vê ela varrendo as calçadas hoje em dia. Sempre tive medo dela. Nunca me pareceu uma vovozinha boazinha. Nem uma, nem outra. Ela tinha um presépio gigante. Todo ano, no Natal, íamos visita-lo. Era o único dia em que podíamos entrar na casa escura da feiticeira da rua.
O amor, da vida toda, ainda é o mesmo amor de toda vida. Renovado, renascido, reciclado diariamente. Mais experiente, mais tolerante, menos exigente consigo e com os outros. Mais charmoso, mais atrevido, mais leve quanto às expectativas que a vida não atendeu. Mais romântico, mais criativo, mais carinho e menos críticas. Mais tio e menos sobrinho. Mais pai que filho. Mais sensível, mais sonhador, mais nostálgico. Mais próximo. Mais terno e mais eterno.
As mesmas músicas, as mesmas histórias contadas nas mesmas poesias. Sonhos tão diferentes. Tão poucos e tão simples. O mesmo bairro que é tão longe e tão perto de tudo o que hoje eu preciso. Tudo cabe aqui. Hoje, eu aqui me encaixo. Já achei que não encaixava um dia. A mesma coberta que já é suficiente pro pouco frio que eu sinto. O tecido amolecido pelo tempo, encarrega-se do carinho noturno. Os poucos amigos são suficientes. Não preciso de muitos, não preciso de muito. Preciso da verdade que eles são. A mesma casa é muito mais confortável do que foi um dia. Os retratos são muito mais verdadeiros. As crianças são novas, mas as alegrias as mesmas. O café continua quente nas mesma xícaras coloridas. Ainda rimos na mesma cozinha. O amor continua eterno.
A conversa acabou, mas o eco dessa revelação caminhou comigo sob a chuva. No silencio da rua escura, o barulho na minha cabeça era ensurdecedor. Era eu mesma querendo gritar algo pra mim. Era eu mesma fugindo pra não ouvir.
"Eu não me canso de nada."
Eu ouço as mesmas músicas que ouvia na adolescência. Coletâneas repetidas. Eventualmente, porém raramente, novos intérpretes por simples curiosidade, mas sempre as mesas melodias, as mesmas letras, as mesmas poesias. A mesma Água de Março fechando o verão. O mesmo Barquinho que vai e volta na voz miúda. O mesmo banquinho, o mesmo violão. A mesma Garota, hoje já idosa, desfilando pelas mesmas ruas de Ipanema. O mesmo amor que Não é eterno, posto que é chama, mas que é infinito enquanto dura. O mesmo Samba que ainda é uma forma de oração.
Eu moro no mesmo bairro desde que nasci. Ando nas mesmas calçadas, nas mesmas vielas. Passo sob as mesmas árvores. Frequento a mesma padaria. Enfrento a mesma ladeira com os mesmos paralelepípedos. Me deslumbro com o excesso de ofertas de novos títulos da mesma antiga banca de jornais. Encanto-me com as poucas fachadas que sobreviveram aos novos moradores. Respiro a nostalgia que dá perfume ao bairro de imigrantes. Já conheço poucos rostos. Pouquíssimos rostos ainda me conhecem. Hoje os carros na avenida são bem mais velozes, mas hoje andamos bem mais devagar.
Os meus amigos me viram crescer. Viram a menina séria e dedicada transformar-se em alguém que cobra da vida poucas certezas. A menina de ontem, já não é a melhor da classe, nem a mais popular ou a mais bonita. Já não é rainha da primavera. Ainda falamos da mesma escola, que agora tem o muro enfeitado com caquinhos de mosaico e nova proposta pedagógica. Relembramos os mesmos professores, contamos as mesmas histórias. Conhecemos os pais, irmãos, casas, hábitos. Conhecemos as histórias de vida. Algumas fáceis, outras nem tanto. Os mesmos amigos, renovando risadas há 40 anos.
Ainda durmo com a mesma coberta que me cobria há 30 anos. Era novidade na época. Um substituto mais saudável aos cobertores que castigavam os alérgicos. Hoje ela está puída, já se pode ver através do tecido. A estampa esmaeceu. Parece que as folhas miúdas, que enfeitavam o marrom do fundo, caíram num inverno tardio. Toda noite a enrolo e coloco sob meu rosto. É inenarrável o prazer que isso me proporciona.
Numa estante moderna, peças antigas disputam espaço com modernos equipamentos. Um relógio que já marcava horários rígidos há quase 100 anos, agora tem máquina mais silenciosa. Os horários já não são tão rígidos. O relógio já não é tão preciso. Hoje ela é mais precioso que preciso. O rádio, que sempre ficou na cabeceira esquerda da cama da minha avó. Cama onde sentávamos e aprendíamos a bordar. Nunca aprendemos, mas gastamos intermináveis metros de fios coloridos. Eu amava aqueles novelos. Onde será que foram parar as miniaturas das peças de porcelana? Eu não me lembro de ter ouvido nada nesse rádio, mas lembro dele sempre ter estado lá. Um vidro de perfume. Cristal. Lindo. Vazio agora. Nem sei se um dia ele esteve realmente cheio. Uma sopeira, linda, florida com detalhes dourados. Não me lembro de ter tomado um prato sequer de sopa desta sopeira, mas a guardei como um gesto de carinho da madrinha tão querida. Um tesouro seu que tão carinhosamente passou às minhas mãos. Uma parte da sua história que, enfim, ligou-se à minha. O relógio com o cuco. O cuco não existe mais. Será que morreu? Fugiu? Hoje ele é silencioso e me observa. Talvez criticando meu tempo que passa. Meu tempo que passa sem sopa, sem música no rádio, sem cuco, sem cores nos novelos.
Quando eu nasci, meu pai me comprou uma boneca para a primogênita. Não era uma boneca simples, nem da Estrela a boneca era. Era uma boneca exótica. "Exótica", era um adjetivo que sempre me pareceu muito ousado para uma boneca. A boneca é vermelha, tem cabelos grisalhos. Ela sorri de olhos fechados e tem bochechas proeminentes. A boneca ainda existe. Eu ainda amo essa boneca. Hoje ela segura alguns livros da minha biblioteca. Por ser exótica, a deixo perto de Anais Nin. Elas se dão bem, acredito eu. A boneca continua sorrindo, nem rugas ela tem.
A casa da infância ainda é a mesma. Pouco mudou-se da disposição. A escada, de onde caí tantas vezes, ainda está no mesmo local. Ainda são doze degraus. Os muros ainda são altos. Eu cresci pouco, os muros continuam altos para minha estatura. O porão ainda existe. A sala ainda é gigante. A cozinha ainda é carinhosamente barulhenta e ainda cheira a café e rosquinhas. As xícaras ainda são de ágata. O piso do quarto da avó ainda é o mesmo. A avó já não dorme mais ali. O mesmo corredor interminável. As mesmas panelas, o mesmo mármore cor de rosa, um mesmo quartinho que mudou de função ao longo do tempo, a mesma tampa no quintal, o mesmo portão ligando as casas, as mesmas passagens secretas, os mesmos quadros, os mesmos porta retratos. As mesmas lembranças emolduradas pelas mesmas paredes.
A Dona Olívia ainda é a mesma. Uma delas é a mesma, a outra morreu há alguns anos. Ela já era idosa quando eu era criança. Pouco se vê ela varrendo as calçadas hoje em dia. Sempre tive medo dela. Nunca me pareceu uma vovozinha boazinha. Nem uma, nem outra. Ela tinha um presépio gigante. Todo ano, no Natal, íamos visita-lo. Era o único dia em que podíamos entrar na casa escura da feiticeira da rua.
O amor, da vida toda, ainda é o mesmo amor de toda vida. Renovado, renascido, reciclado diariamente. Mais experiente, mais tolerante, menos exigente consigo e com os outros. Mais charmoso, mais atrevido, mais leve quanto às expectativas que a vida não atendeu. Mais romântico, mais criativo, mais carinho e menos críticas. Mais tio e menos sobrinho. Mais pai que filho. Mais sensível, mais sonhador, mais nostálgico. Mais próximo. Mais terno e mais eterno.
As mesmas músicas, as mesmas histórias contadas nas mesmas poesias. Sonhos tão diferentes. Tão poucos e tão simples. O mesmo bairro que é tão longe e tão perto de tudo o que hoje eu preciso. Tudo cabe aqui. Hoje, eu aqui me encaixo. Já achei que não encaixava um dia. A mesma coberta que já é suficiente pro pouco frio que eu sinto. O tecido amolecido pelo tempo, encarrega-se do carinho noturno. Os poucos amigos são suficientes. Não preciso de muitos, não preciso de muito. Preciso da verdade que eles são. A mesma casa é muito mais confortável do que foi um dia. Os retratos são muito mais verdadeiros. As crianças são novas, mas as alegrias as mesmas. O café continua quente nas mesma xícaras coloridas. Ainda rimos na mesma cozinha. O amor continua eterno.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Do que são feitos os Laços de Família? Parte II
Do que, afinal, são feitos os tais "laços de família"? Sem a pretensão romântica de ser a dona da verdade, vou tentar registrar aqui a sensação dos ingredientes que hoje compõem meus laços de família.
Primeiramente é necessário registrar que os laços de família ficam evidentes entre as paredes de tijolinho aparente da casa da Maria. É lá que se sente o cheiro do amor que adoça os laços. É lá que os laços são alimentados, são cuidados, são comemorados.
Sempre há festa em torno da mesa mágica da cozinha mágica da Maria. Basta que se sentem duas pessoas que a festa, como mágica, se realiza. São sempre risos fáceis, piadas, lembranças, fotos históricas, cheiro de bolo de segunda feira. Existem sempre amigos em volta da mesa mágica da cozinha da Maria. Há sempre um barulho de água caindo na pia ao fundo. O som do portão que abre quando alguém chega. O falar de alguma televisão ligada em algum cômodo. Há sempre festa, bolo e barulho na cozinha da Maria.
Nem sempre a casa da Maria foi tão alegre. A felicidade era contida. Havia conflitos que se escondiam atrás da porta da área íntima da casa, apesar da área íntima da casa nunca ter tido uma delimitação clara para ninguém, os conflitos existiam, eram evidentes. No meio de alguma bagunça, de algum entulho, no fundo de alguma gaveta de tranqueiras, os conflitos sumiram. Incrível, eles não existem mais.
Na casa da Maria havia poucas crianças. Os natais foram ficando vazios de sentido. O papai noel não enganava mais ninguém. Ninguém comia os enfeites de chocolate da árvore. As poucas crianças já estavam crescidos...a casa passou a ficar silenciosa.
Como tudo na casa da Maria é dotado de certa dose de benção especial, de susto chegou Cecília. Fora de hora, não planejada, para nos ensinar que somos meros atores, mas que quem escreve a história é alguém que sabe muito mais que nós. Chegou na hora e do jeito que quis. Cecília faz barulho, sorri, engatinha, chama pra si todos os holofotes. Cecília trouxe para a casa da Maria, de novo, o cheiro de criança. Cheiro de criança é essencial como ingrediente para laços de família.
Acharam que era pouco. Logo atrás de Cecília, vieram os gêmeos: Arthur e Isadora. Não bastava ser mais uma criança, tinham que ser duas, não bastava serem gêmeos, tinham que ser um casal, não bastava esperarem quase até o final da gravidez, tinham que ser lindos. Agora são três. Três novos ingredientes para adoçar nossos já tão doces laços. Nós, embasbacados, ainda nos sentimos como crianças presenteadas pelo Papai Noel. Exibimos nossos presentes, cheiramos nossas novas bonecas e rimos feito bobos.
Como registrar de forma fiel o aroma de amor que se sente no ar na casa da Maria?
terça-feira, 23 de julho de 2013
Do que são feitos os laços de família?
Uma avó, três filhas, 10 netos, alguns bisnetos. Sou incapaz de reconhecer os bisnetos. Percebo alguns traços sutis dos pais, mas não me esforço para saber quem são. Aparentemente, eles também não se interessam em saber quem sou eu. Desconfio que a semelhança com minha mãe me denuncia. Um mesmo tronco de família. Desconhecidos dentro de uma sala cheirando mal. Desconforto e um morto entre nós. Uma avó triste, tão triste. O rosto dela é a tradução da tristeza de quem sobrevive aos seus descendentes.
O morto foi um tio um dia. Tive poucos tios. Apenas dois. Um deles, amei e odiei. Foi quem me ensinou a perdoar. Desse, que hoje era o centro das atenções, eu não tinha ódio, nem amor, nem lembranças tão pouco. Ele foi marceneiro. Fez armários, portas e o forro da casa dos meus pais e só. Foi só o que ele fez. Não consegui sofrer por ele, mas sofri pela tia, meio desorientada e abandonada na vida.
Quase no momento final, chorei na despedida do irmão. Tão velho, cego, perdido, à beira da morte há tantos anos. Chorando dolorosamente sobre o corpo do irmão, sem poder vê-lo. Vi meu pai chorando pelos amigos de uma infância tão distante. Muito mais distante do que a temida morte. Sinto que meu pai não quer morrer. Hoje o vi chorar. Chorar pelo amigo perdido ou pela sombra da morte?
O dia estava feio, como são todos os dias de enterro. Caía uma garoa fina e as pessoas se encolhiam. Encolhiam-se de frio e também para evitar-se mutuamente. Triste. Tudo era triste ali. A morte era triste, mas também era triste a vida.
Do que, afinal, são feitos os laços de família?
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Nascem mães
Em 100 anos mudaram muito os nossos papéis. De donas de casa e submissas esposas, passamos a arrimo de família, mães solteiras, altas executivas, presidentes da república.
Mudaram nossa cabeça e nosso corpo. As antes tão infantis meninas de 12 anos, hoje já são mulheres cheias de curvas e desejos. As balzaquianas nunca foram tão cobiçadas. A juventude agora dura mais.
A maternidade, antes natural aos 18, hoje vai para o fim da fila das prioridades. Antes vem os estudos, a carreira, a casa própria, o carro do ano, a utopia da estabilidade. Tornamo-nos mães tardias.
Conquistamos o direito de sermos "mães loucas". Mães sufocadas entre os papéis de mãe, amante, dona de casa, alta executiva e amante. Cabeça em planilhas de excell, mãos de fada para bolos e quitutes, peitos fartos de leite, lingerie sensual. Onde se encontra a magia de desempenhar bem tantos papéis??
Só uma mulher seria capaz de tanto. Só nós nascemos programadas para a total abnegação em função do outro.
Em pleno sécuo XXI, sufocada entre papéis impostos, planilhas e Cinquenta Tons de Cinza, ainda cultivamos o desejo e a alegria da maternidade, com todos os ônus que ela traz.
Nasce mais uma mãe...
Eu a vi nascer. A lembrança que guardo do dia do seu nascimento é uma cena na calçada da casa materna. Uma perua escolar vinha buscar a outra irmã. Uma perua azul. A mãe, sempre presente, estava ausente naquele dia. Tinha ido buscar mais uma menina para nos.
Nao lembro o que senti. Não sei se tinha ideia da dimensão que aquilo tinha. Ela veio muito pequenininha, não lembro se enrolada em xale ou manta. Deste tempo sobrou muito pouca lembrança. Nem todas boas. Ainda bem pequena, ficou muito doente, dizem que quase morreu. Sempre ouço contarem histórias sobre lábios e unhas roxas e alguns dias em uma UTI. Sempre achei isso bem sério. Lembro de uma vela acesa aos pés de um santo ao lado da porta da entrada e lembro do choro da minha mãe.
Não sei se por esse fato, não sei se pelo fato de ter tido ombro de irmãs mais velhas, mas Carina sempre foi forte. Forte e independente. De tão independente, muitas vezes se fez distante.
Dela agora eles vão chegar. Gêmeos. Os únicos gêmeos na família. Devem vir Arthur e Isadora. Já tão especiais desde antes de chegarem. Tão esperados, de certa forma, até temidos.
Carina é uma mãe linda. Ela iluminou. A barriga giganté é incômoda, os pés incham, as costas dóem, mas Carina é só sorrisos, é só felicidade.
Eu observo, olhos enchem de lágrimas. Transborda emoção.
domingo, 24 de março de 2013
Pedido ao tempo
Tempo,
por favor devolva-me minhas tardes livres de angústias e aflições,
devolva-me a vida sem perdas nem partidas,
devolva-me aos meus 20 anos.
Tempo,
devolva meus fartos cachos despreocupados,
minhas vespertinas aulas de violão,
devolva-me meus sonhos leves e realizáveis.
Tempo,
preciso urgente das minhas esperanças ao Sol,
da fantasia de amores eternos,
de cabanas na praia,
da sombra da cerejeira.
Tempo,
preciso da chuva na cabeça ao final da tarde,
preciso do cheiro do café no ninho materno
invadindo minha alma e me dizendo que vai dar tudo certo enfim.
Tempo,
preciso acreditar novamente nos finais felizes,
devolva-me minhas ilusões críveis,
devolva-me aos meus 8 anos, aos meus 12 anos, aos meus 15 anos...
o brilho dos meus olhos
Tempo,
devolva-me tudo o que eu tinha a reazliar,
tudo o que era tão possível...
Tempo,
preciso de tempo para respirar.
por favor devolva-me minhas tardes livres de angústias e aflições,
devolva-me a vida sem perdas nem partidas,
devolva-me aos meus 20 anos.
Tempo,
devolva meus fartos cachos despreocupados,
minhas vespertinas aulas de violão,
devolva-me meus sonhos leves e realizáveis.
Tempo,
preciso urgente das minhas esperanças ao Sol,
da fantasia de amores eternos,
de cabanas na praia,
da sombra da cerejeira.
Tempo,
preciso da chuva na cabeça ao final da tarde,
preciso do cheiro do café no ninho materno
invadindo minha alma e me dizendo que vai dar tudo certo enfim.
Tempo,
preciso acreditar novamente nos finais felizes,
devolva-me minhas ilusões críveis,
devolva-me aos meus 8 anos, aos meus 12 anos, aos meus 15 anos...
o brilho dos meus olhos
Tempo,
devolva-me tudo o que eu tinha a reazliar,
tudo o que era tão possível...
Tempo,
preciso de tempo para respirar.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Ausências
Ontém, em meio a arrumações que o tempo disponível tem me permitido, joguei uma peça fora.
Não fui capaz de encará-la enquanto a colocava num saco colorido. Não fui ousada o suficiente para ter colocá-la num revelador saco transparente. Talvez fosse julgada por isso. Certamente seria.
Ela entregou-se silenciosa, quase resignada. Não resistiu. Não argumentou, nem quis se defender do descarte. Não esbravejou, não cobrou a importância da história.
Acomodou-se ao fim. Morreu em paz. Como quem morre no final de muita vida.
O saco, que serviu-lhe de mortalha, era de um elegante veludo cinza. Quase uma vingança ou talvez um último e sofisticado gesto de agradecimento a uma história tão longa e salpicada de alguns momentos plenos de alegria.
Ela estava silenciosa lá há anos. Intercalou momentos de resguardo e exposição. Era uma das peças que dava significado a uma prateleira que agora fica deserta. A vida também é feita de espaços. A prateleira deserta fica agora a espera de uma nova peça, de uma nova história.
Por que será afinal que o vazio incomoda tanto? De onde virá essa necessidade urgente de encobrir as marcas brancas deixadas por peças, por quadros, por pessoas?
Deixo que o vazio respire.
Preciso dele nesse momento.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
há pouco éramos poucos. éramos menos. alguns poucos e nem tão felizes. não chegávamos a ser tristes. acho que tristes nunca fomos. mas felizes? tenho minhas dúvidas.
éramos poucos e uma triste árvore de natal.
éramos mais espaços. éramos falta de outros. sentíamos falta de uma roda onde, na realidade, nunca fizemos falta alguma.
éramos alguns silêncios. éramos vários segredos. algumas mágoas e muita saudade.não éramos plenos.
sobravam frutas na mesa decorada com a antiga toalha vermelha. sobrava massa do bolinho. éramos poucos pacotes sob a grande árvore. éramos desejo de mais risadas, de mais castanhas, de mais restos de papel pela casa. sobravam horas na nossa festa.
o tempo nos trouxe harmonia de presente. nos trouxe um saco de paz. um pacote gigante de novas gargalhadas. o tempo nos presenteou com novas vidas. mágica pura.
hoje somos harmonia, perfeita harmonia. uma paz que faz barulho, paz que gargalha, que tira sarro da vida. hoje temos menos espaços. precisamos menos de outros. hoje somos nós. fazemos nós mesmos nossa roda. aprendemos a brincar sozinhos.
hoje somos nossa própria história, e temos nós tantas histórias. somos nossos próprios elos. nossos próprios filhos. hoje somos plenos de nós, nada nos falta. hoje já não sobramos em canto algum. somos prioridade para nós mesmos.
hoje somos muitos. somos muitos a espera de mais alguns. mais vidas. mais risadas. mais alegria.
hoje somos nós.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
O tempo passa...
O tempo passa. Sábia constatação. Passa rápido. Por cima da gente, inclusive, se a gente não ficar esperto. Atropela sonhos, expectativas, esperanças, saudades, distâncias. Ele passa. Passa e leva no vácuo algumas certezas. Leva lembranças. Deixa um gosto esquisito de esquecimento.
O tempo passa. Há pouco que se possa fazer. Ele deixa marcas nas paredes, ao redor dos olhos, nas páginas amarelas, nos furos das roupas, na nata do leite.
Tenho pensado muito nisso. No tempo que passa. Eu passando com o tempo. O tempo que é tão pouco para algumas pessoas. O tempo que nos afasta. O tempo que rouba a intensidade daquele primeiro momento. Um tempo tão pequeno para um primeiro momento.
O tempo que seca a roupa na corda do varal. O tempo da música. Do beijo. Do adeus. Do esquecimento. O tempo da amiga que se foi. O tempo que não cura tudo.
Será o tempo que me assusta ou será a falta dele?
O tempo que passa e eu que não faço nada com ele. O tempo que encolhe e me assusta. Meus sonhos já não cabem dentro do tempo que tenho. Meus sonhos não encolheram com o tempo. Ilusão. Ilusão ficou grande demais para o tempo que já não tenho. Passou.
O tempo passa. Há pouco que se possa fazer. Ele deixa marcas nas paredes, ao redor dos olhos, nas páginas amarelas, nos furos das roupas, na nata do leite.
Tenho pensado muito nisso. No tempo que passa. Eu passando com o tempo. O tempo que é tão pouco para algumas pessoas. O tempo que nos afasta. O tempo que rouba a intensidade daquele primeiro momento. Um tempo tão pequeno para um primeiro momento.
O tempo que seca a roupa na corda do varal. O tempo da música. Do beijo. Do adeus. Do esquecimento. O tempo da amiga que se foi. O tempo que não cura tudo.
Será o tempo que me assusta ou será a falta dele?
O tempo que passa e eu que não faço nada com ele. O tempo que encolhe e me assusta. Meus sonhos já não cabem dentro do tempo que tenho. Meus sonhos não encolheram com o tempo. Ilusão. Ilusão ficou grande demais para o tempo que já não tenho. Passou.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Envelhecer
...de Ivan Angelo...a respeito do Envelhecer....
"Percebes as perdas; mas a sabedoria que vem com elas impedirá gura e te encaminhará, se fores esperto, para o humor.
Observas teu corpo, notas que já não gozas de tantos privilégios, aquela visão, a audição, a agilidade, a memório, o racicínio, o equilíbrio, o olhar interessado das moças.
Sentes dificuldade de te equilibrar sobre um pé só, para vestir as calças, por exemplo; já não dá para galgar correndo os degraus do ônibus. Paciência. Principalmente para quem vem atrás: paciência.
O humor te salva. Comparas teu corpo com o automóvel que não trocaste: os faróis perdem luminosidade, a suspensão e os amortecedores começam a socar, osso com osso, o motor faz barulhos suspeitos, a bomba de combustível perde pressão, a bateria cai e não dá aquela partida, o óleo vai ficando ralo, as cores da lateria tornam-se pálidas, aparecem manchas, riscos...
O que mais se perde é a pressa, e o perdê-la é um ganho. Ganha-se o fruir, o tempo da degustação. Uma fruta já não é só alimento, é sumo, é açucar, é sorver, como na infância.
A sombra torna-se merecimento, deixar-se estar, sem ter de forçosamente abreviar aquele desfrute. Doce, nem precisas de muito, o pouco rende, vai demorando-se no céu da boca, continua rendendo pelas artérias.´
Andar não é tanto a obrigação de chegar, é flanar. E amar já não é uma batalha, é rendição - de arma pronta, porém.
Nem tudo é perda, aprendes. Melhoram a ponderação, o juízo, paciência, o paladar, a noção de convivência, a noção de tempo. Quanto menos tempo te resta, mais avaro o aproveitas."
"Percebes as perdas; mas a sabedoria que vem com elas impedirá gura e te encaminhará, se fores esperto, para o humor.
Observas teu corpo, notas que já não gozas de tantos privilégios, aquela visão, a audição, a agilidade, a memório, o racicínio, o equilíbrio, o olhar interessado das moças.
Sentes dificuldade de te equilibrar sobre um pé só, para vestir as calças, por exemplo; já não dá para galgar correndo os degraus do ônibus. Paciência. Principalmente para quem vem atrás: paciência.
O humor te salva. Comparas teu corpo com o automóvel que não trocaste: os faróis perdem luminosidade, a suspensão e os amortecedores começam a socar, osso com osso, o motor faz barulhos suspeitos, a bomba de combustível perde pressão, a bateria cai e não dá aquela partida, o óleo vai ficando ralo, as cores da lateria tornam-se pálidas, aparecem manchas, riscos...
O que mais se perde é a pressa, e o perdê-la é um ganho. Ganha-se o fruir, o tempo da degustação. Uma fruta já não é só alimento, é sumo, é açucar, é sorver, como na infância.
A sombra torna-se merecimento, deixar-se estar, sem ter de forçosamente abreviar aquele desfrute. Doce, nem precisas de muito, o pouco rende, vai demorando-se no céu da boca, continua rendendo pelas artérias.´
Andar não é tanto a obrigação de chegar, é flanar. E amar já não é uma batalha, é rendição - de arma pronta, porém.
Nem tudo é perda, aprendes. Melhoram a ponderação, o juízo, paciência, o paladar, a noção de convivência, a noção de tempo. Quanto menos tempo te resta, mais avaro o aproveitas."
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Medo
eu lembro de sentir muito medo quando era mais nova
tinha medo de errar
medo de não atingir meus objetivos
medo de aparecer demais
medo de desaparecer
de não conseguir descobrir quem eu era
medo também de descobrir quem eu era e não gostar da descoberta
hoje, andando pela faria lima, descobri que tenho poucos medos
não tenho medo da cidade que se mostra violenta na estatística
não tenho medo do motoboy suspeito que passa ao meu lado
com um skate na garupa
não tenho medo do trânsito
de chegar atrasada
de chegar cedo demais
de dizer que nao sei
de pedir para repetir a explicação
de parecer ridícula com minha capa de dez anos
caminhando, a pé, penso muito
concluo que sinto poucos medos
talvez os tenha perdido junto com as certezas
existe ligação entre medos e certezas?
talvez sim
talvez medos nasçam de certezas destruídas
quem não tem certeza de nada, não erra
quem não sabe para onde caminha, desfruta do caminhar
hoje só tenho medo do medo que não tenho.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Meus desejos para você, a mais nova Flor do meu jardim: Cecília!
........
Antes de qualquer coisa quero que você seja feliz,
que todos os dias da sua vida você encontre um motivo para sorrir
e que quando quiser chorar, tenha sempre um colo amigo que te esquente.
..........
Quero que você rale o joelho e fique com a cicatriz de um momento feliz.
Quero que você chupe sorvete de casquinha e que ele pingue por baixo e te manche uma blusa nova.
Quero que você voe algo no balanço da praça.
Quero que você chore quando seu primeiro dente cair.
Quero que você tenha soluços de tanto rir.
Quero que você sinta a emoção de virar uma cambalhota.
Quero que fique tonta de tanto brincar de roda.
Quero que você pule corda até cair de cansada.
Quero que você tire sonecas vespertinas no sofá.
Quero que você coma muita gelatina colorida
Quero que você raspe a tijela da massa de bolo.
Quero que você se esconda atrás da cortina.
Quero que você sonhe em ser a Cinderela ou a Mulher Maravilha.
Quero que você suspire pelo Príncipe Encantado ou pelo Sapo.
Quero que você seja corajosa e enfrente o monstro do armário.
Quero te ouvir dizer mamãe.
Quero te ver ouvindo minhas histórias de mocinho e bandido.
Quero te ver fazendo manha.
Quero que você brinque de mangueira.
Quero que você durma no meio da cama.
Quero que você tenha todos os sonhos de criança.
Quero que você chore por uma grande paixão.
Quero que você se apaixone por um ídolo da televisão.
Quero te mostrar o Pequeno Príncipe.
Quero te falar do Tibet e de Paris.
Quero te colocar no colo e cheirar seu pescocinho.
Quero te ver dar seu primeiro passo.
Quero te ver viver todos os seus sonhos.
......
Quero estar sempre por perto!
Seja bem vinda, Cecília!
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
"A Queda"...Diogo e Tito
"Tito foi meu Ricardo III. Tito foi meu sapo venenoso.
Ele tomou meu trono. Ele dominou meu reino. Depois do seu nascimento, tornei-me um fantasma que gira em torno dele."
.........
"Cheguei cedo à UTI do hospital de Pádua.Tito estava em uma incubadora. Nada nele se movia. Um tubo pendia de uma artéria em seu pé. Outro tubo, ligado a um respirador, alargava-lhe grotescamente uma narina. Ele tinha eletrodos espalhados por todo o corpo, conectados a uma série de aparelhos. Ocasionalmente, um desses aparelhos emitia um alarme e os médicos da UTI corriam para controlá-lo. Sempre que isso ocorria, eu era tomado pelo temor de que Tito estivesse morrendo. O temor era desesperador. Era também um alento. Eu só consequia ter certeza de que Tito ainda estava vivo quando temia que ele estivesse morrendo.
Para poder morrer, Tito tinha de estar vivo."
...............
"Saber cair tem muito mais valor do que saber caminhar."
...........
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
As piores notícias...os lindos lábios.
Há histórias de amor que já nascem fadadas a tristes fins....
Trechos que valem a pena serem guardados:
"A esperança é o pior dos venenos."
"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta."
"Eu ia embora. O rebuliço das caixas pelos cômodos, a falta de bebidas no armário da cozinha, um lençol improvisado como trouxa de roupa no quarto, as marcas mais claras na paree de um ou outro quadro ausente, tudo alardeava a notícia da minha partida. E a gente falando das diversas poesias e miudezas do mundo. Até mesmo de um tatu chamado Zacarias."
"Embora estivesse morrendo de vontade, não pedi que abrisse o vestido sóbrio, para que minha sede pudesse despedir-se das fontes de seu corpo. Sabia que não me saciaria."
"Talvez tivesse me abaixado para afagar uma despedida em sua placa carrugada. (Imagine: entre as coisas que me fazem falta na vida , existe ate um tatu.)"
terça-feira, 14 de agosto de 2012
A volta com amores!
"Tudo o que é bom, tudo o que é ruim, também termina por acabar."
"A esperança é o pior dos venenos, seu Cauby. O senhor não concorda?"
Um pequeno príncipe que busca sentido onde só há sentimento....
Ando à volta com amores. Amores de Gabriela e Nacib. De Mundinho e Gerusa. Amores correspondidos e amores assassinos.
Amores de Cauby e Lavínia que, ainda não sei, mas me cheira a tragédia.
Ando a volta com amores...mas nenhum que me tire o ar.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Carson McCullers - O Coração é um Caçador Solitário
Foi num sábado, num dos Saraus do Mae. A nova amiga, abriu uma grande estante com portas de vidro e, do meio de todas as lombadas, puxou a desse livro.
Veio para casa comigo, cuidadosamente ajeitado entre os outros. E desde então, ando com ele.
Edição terrível. Frases muito juntinhas embananam minhas vistas já não tão jovens. Mas sigo corajosa. Tentando desvendar a história dos dois mudos.
..................
"Na cidade havia dois mudos..."
"M.K. Era o que escreveria em tudo quando tivesse dezessete anos e fosse bastante famosa. Voltaria para casa num Packard vermelho e branco com suas iniciais nas portas. Mandaria por M.K. , em vermelho, em seus lenços e roupa de baixo. Talvez se tornasse uma grande inventora. Inventaria radiozinhos minúsculos, do tamanho de um grão de ervilha, que as pessoas levariam consigo enfiados no ouvido. E também máquinas de voar que as pessoas amarrariam às costas como mochilas e sairiam zunindo pelo mundo todo. Depois disso seria a primeira a fazer um grande túnil varando o mundo até a China, e as pessoas poderiam descer em grandes balões. Essas seriam as primeiras coisas que inventaria. Já estavam planejadas."
"A descida era a parte mais difícil de qualquer subida."
"Fora então que ela compreendera aquilo sobre o pai. Mas não era como se soubesse de um fato novo - compreendera-o o tempo todo, de todos os modos, menos com o cérebro. Agora, simplesmente, sabia, de repente, que conhecia o pai. Ele era solitário e estava velho. Como nenhum dos filhos se dirigia a ele para nada, e como ele não ganhava muito dinhiro, sentia-se separado da família. E em sua solidão desejava ficar perto de um dos filhos - mas eles viviam sempre tão ocupados o tempo todo que não sabiam disso. Ele sentia que não servia muito para ninguém."
"A tarde chegava ao fim, e o sol lançava longos e enviesados raios pela janela. Se levasse duas horas vestindo-se para a festa, já era tempo de começar. Quando pensava em vestir aquelas finas roupas, não podia simplesmente ficar sentada esperando. Muito lentamente, dirigiu-se ao banheiro e despiu o velho short, a camisa e abriu a água. Esfregou as partes ásperas dos calcanhares, os joelhos, e especialmente os cotovelos. Fez o banho durar um longo tempo."
"Está vendo, Sr. Singer? Tenho essa música dentro de mim o tempo todo. Preciso ser uma música. Talvez não saiba de nada agora, mas vou saber quando tiver vinte anos. Está vendo, Sr. Singer? Quero viajar a um país estrangeiro, onde haja neve."
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Somos todas mulheres!
Cecília nasceu no mato. Lavou roupa no riacho.
Vive para as suas meninas. Tereza, Ana e Maria.
Lavou todos os pratos de todas as nossas refeições.
Hoje, descansa seus longos cabelos brancos, escondidos em lenços escuros.
Tem a serenidade de uma centenária, marcada nas muitas rugas do rosto.
Maria nasceu bonita. Cabelos negros e olhos de jaboticaba.
Lembra da boneca que a prima roubou e do navio que a trouxe pra cá.
Vive para as suas meninas. Cynthia, Patricia e Carina.
Maria é santa. Espírito de LUZ.
Tem a luz que guia e acalma a todos, o tempo todo.
Patricia nasceu em dia de festa.
Grande, linda e já com os lindos longos e negros cabelos.
Estrela num palco de meninas.
Sempre estrela. Sempre brilhando.
Patricia tem a luz de Maria.
Vive para sua menina: Isabela.
Isabela nasceu em dia de chuva.
A surpresa mais desejada.
Grandes olhos e um amor inédito.
Isabela se vestiu de princesa.
Trouxe a Paz a nossa família.
Agora, Isabela nos traz Cecília.
E, de novo, nossa história continua.
..............................................................................................................................................
Um texto de outra Cecília!
Nem tudo é fácil
É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!
É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar
alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar
para que não apenas sonhemos, Mas também tornemos todos esses desejos,
realidade!!!
quinta-feira, 28 de junho de 2012
18 lindos anos!
Era um dia como o de hoje. Seria mais um dia entre todos os outros se você não o tivesse escolhido para chegar. Não deu muito aviso. Estreou.
Aconteceram algumas coisas desde então. Vivemos na mesma casa. Andamos nas mesmas ruas. Temos os mesmos amigos. Nesses poucos anos sofremos algumas perdas.... Choramos algumas tristezas e acumulamos tantas alegrias. Você é nossa luz. Sorrindo, de laço delicado na cabeça.
Não vejo medo em seus olhos grandes. Tenho inveja da sua coragem. A coragem dos inocentes. Suas formas se transformam como se transformaram todos os nossos planos pra você. Passamos os últimos dias revendo os sonhos que sonhamos pra você. Passamos os últimos dias passando à limpo nossos projetos.
Mas quão ingênuos fomos querendo sonhar seus sonhos. Mas quão ambiciosos fomos querendo sorrir seus sorrisos. Afaguei seus cabelos. Enxuguei suas lágrimas e senti uma dor aguda por sua tristeza. Sua dor doeu mais em mim do que qualquer dor que eu tenha sentido na minha vida.
Agora toda tristeza passou. Uma luz divina acendeu-se e clareou todas as nossas dúvidas. Um afago carinhoso envolveu nossos medos e transformou todos os nossos temores em lindos sorrisos de criança. Irresistíveis gargalhadas infantis.
Você sempre foi alegria e certezas para nós...sempre. Não há porque ser diferente agora. Não há.
Agora você carrega mais um pedaço do nosso futuro. Um pedaço com quase um quilo e pouco mais de 20 cm. Um pedaço tão pequeno mas que já preenche um espaço tão importante em nós. A forma do futuro já se vê na sua silhueta, tão mudada nos últimos dias. De nossa menina, num piscar de olhos, você se transforma em nossa "mamãezinha". Tão linda. Quase uma boneca.
Ainda não sabemos se é Cecília. Certamente não será Cecília Flor como eu tanto desejei. Excentricidades de uma tia avó meio louca. Talvez seja Theo. Que venha Deus. Que nos abençoe como você nos abençoou.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
mais valter hugo mae
do valter músico.
"Não vou ser o teu namorado
Eu não vou casar-me contigo
Não sei se queres esperar-me
Para além da morte talvez
Quando tudo estiver acabado
E for hora de recomeçar
E arriscar
Saberei inventar um amor eterno
De ser teu para sempre
Até lá sonha comigo
Como alguém no futuro
Acho que vou ser castigado
Eu sei, por ser tão ausente
Mas vale mais um amor inventado
Se o for eternamente
Ah, sonha comigo
Como alguém no futuro
E seremos apenas aliados
E sem tempo
No amor para sempre
Não vou ser o teu namorado
Eu não vou casar-me contigo
Mas suspeito que queiras esperar-me
Para além da morte talvez
Até lá sonha comigo
Como alguém no futuro"
"Não vou ser o teu namorado
Eu não vou casar-me contigo
Não sei se queres esperar-me
Para além da morte talvez
Quando tudo estiver acabado
E for hora de recomeçar
E arriscar
Saberei inventar um amor eterno
De ser teu para sempre
Até lá sonha comigo
Como alguém no futuro
Acho que vou ser castigado
Eu sei, por ser tão ausente
Mas vale mais um amor inventado
Se o for eternamente
Ah, sonha comigo
Como alguém no futuro
E seremos apenas aliados
E sem tempo
No amor para sempre
Não vou ser o teu namorado
Eu não vou casar-me contigo
Mas suspeito que queiras esperar-me
Para além da morte talvez
Até lá sonha comigo
Como alguém no futuro"
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Vida real!
Acho que eu conheço muita gente. Pelo menos é essa a sensação que eu tenho. Tem sempre algo acontecendo com gente que anda a minha volta.
Gente nascendo, gente morrendo. Gente conquistando, gente desistindo. Gente roendo unha. Gente cortando cabelo. Gente soltando pum. Gente se graduando. Gente tendo câncer. Gente fazendo brigadeiro. Gente casando. Gente separando. Gente indo. Gente voltando. Gente sorrindo e gente chorando. Muita gente, sempre. Muito barulho, sempre.
Chego a conclusão que a ação está muito mais nas pessoas que me cercam do que, propriamente, na minha cena. Talvez eu seja uma personagem de apoio, tão somente uma coadjuvante.
Mais coisa acontece agora! Sabe aquele tipo de coisa que muda a vida? Pois é, esse tipo mesmo.
Todas as vezes em que a vida me coloca a frente de um desafio, eu me sinto totalmente despreparada. Já devo ter dito isso aqui umas 136 vezes. O que prova o quanto eu sou despreparada para os desafios da vida real.
Sou despreparada para dificuldades. Tenho problemas com contratempos. Sou péssima em administrar a adversidade. Demoro a entender que a vida nada mais é que uma feliz sequência de adversidades.
Há alguns anos eu perdia a paz e o ar com a sensação de impotência. Com a impressão de que nem tudo estava sob meu controle. Os anos e talvez as dificuldades me ensinaram a respirar melhor. Hoje sou uma melhor equilibrista de pratos. Ainda deixo alguns caírem, mas os cacos já não me incomodam da mesma forma. Aprendi a acreditar que tem sempre alguém, que sabe mais que eu, e que, muito provavelmente, saiba o que está fazendo. Alguém que talvez tenha um plano maluco e inacreditável para esse caos que se chama "vida". Aprendi que isso se chama FÉ.
Hoje, ela que nasceu da adversidade, há tão poucos anos, precocemente se vê a frente de uma decisão tão dura, tão cruel e solitária. E eu, impotente, só posso olhar de longe.
Meu desejo hoje, seria te colocar no colo. Te deixar chupar o dedo e costurar seu pilili, pensativa. Queria hoje poder ver em seus olhos grandes, a paz que eu via nesses seus momentos de descanso. Mas não posso. Hoje, nesses mesmos olhos, vejo medo, aflição e uma descrença sem fim.
terça-feira, 12 de junho de 2012
recomeços...parte 2
Mas fulana, isso não deveria ser um post sobre "recomeços"?
Que raio faz um orelhão ilustrando o texto?
Tá, eu explico....
Ulisses, de James Joyce, é um livro que eu namoro de longe. Algo como aquele restaurante ultra fino que você não entra não necessariamente por falta de dinheiro, mas talvez por achar que não esteja pronto para aquele ambiente. Mais ou menos isso. Tenho Ulisses a uma distância segura.
Há algumas semanas li que a Companhia das Letras estava relançando Ulisses numa edição popular. Óbvio, popular no preço, não na obra. A obra continua sendo..."a obra". Em comemoração ao lançamento, um mini curso de 2 dias com Caetano Galindo, tradutor dessa última edição. Planejei colocar meus óculos vermelhos, fazer pose de intelectual (que aliás faço muito bem) e me embrenhar no meio da platéia. Talvez ninguém notasse a minha presença ali. Praticamente uma intrusa. Fui.
O mini curso começou ontem. Inacreditavelmente Caetano fala minha língua. É simples e muito didático ao tentar passar para a pequena platéia um cenário geral da obra de 1100 páginas. Estou mais apaixonada que nunca e agora talvez tenha coragem de um olhar mais demorado...uma assédio mais próximo. Talvez, eu digo apenas talvez, eu encare Ulisses desta vez.
Bom, mas afinal o que tem a ver o tal orelhão pintado da foto com Ulisses e com recomeços?
Ontem, foi um dia surreal, uma correria do cão a tarde. Cheguei em casa em cima da hora e previa ir de ônibus/metrô para a Paulista. Se eu tivesse leitores e eles fossem leitores desavisados (sempre quis escrever isso "leitores desavisados") eles não entenderiam porque achar estranho ir de ônibus/metrô para a Paulista. Mas se eles me conhecessem, entenderiam.
Cheguei correndo, esbaforida de uma tarde incrível, de jaqueta preta e cachecol rosa. Larguei o carro e lá fui eu, de botas cano alto, de ônibus para a Paulista. Sim, a Paulista.
A Paulista sempre foi um cenário importante para mim. Algumas pessoas gostam do Itaim, outras da Liberdade, algumas da Vila Mariana. Eu mesma tenho quedinha grande pela Vila Madalena. Mas, cá entre nós, é na Paulista que as coisas acontecem.
E lá estava eu. Toda "pimpona" como diria uma nova amiga já muito querida. Caminhando nas calçadas da Paulista, iluminada por aquela incrível luz amarela, com passos seguros e um sorriso meio idiota no rosto. Eu quis registrar isso hoje, pois tenho certeza que daqui a alguns dias isso vai parecer uma bobagem sem fim. Mas ontem, isso teve uma importância ímpar nesse meu recomeço.
Ontem, eu era uma adolescente tardia. De botas de cano alto (eu nunca tinha tido botas de cano alto), andando sozinha (de ônibus) pela Paulista. Me aventurando num mundo que sempre amei (a literatura) mas que nunca foi meu. A sensação do dia de ontem é algo que quero guardar pra sempre.
Por que o orelhão afinal?
Há alguns dias conversando com um amigo, que mora há alguns anos nos EUA, acabamos ficando na dúvida quanto a configuração atual dos orelhões de São Paulo. Ele, ausente da cidade há muitos anos, lembra-se de um orelhão amarelo "marca texto". Eu lembrava de algo azul. Ontem, na Paulista, me deparei com esse. Obvio, talvez seja uma versão moderninha que fizeram para a Paulista (não acredito que os orelhões de Barueri tenham essa configuração). Mas enfim, mostrou como eu vivi fora do mundo nos últimos anos.
O orelhão foi a minha porta de entrada para esse mundo onde as coisas acontecem...
segunda-feira, 11 de junho de 2012
de valter hugo mae (assim mesmo, em minúscula)
O que a obra provoca.
............
De tempos em tempos cai no colo da gente uma obra, um autor, um personagem....há pouco tempo me caiu no colo tudo isso junto.
Ele surgiu, a princípio, como uma opção desconhecida no Nosso Clube de Leitura. Talvez pela concorrência fraca dos demais títulos, acabou sendo o escolhido. O livro, àquela altura, era "a máquina de fazer espanhóis" de um autor, até então, desconhecido para nós.
Mas que escritorzinho mais atrevido. Não respeita as regras de pontuação, vejam só. Cadê as maiúsculas do texto, mas que absurdo.
Como tudo que corre o risco de transgredir, a obra transcendeu. Enfeitiçou. Essa é a palavra. Fiquei enfeitiçada.
.......
Numa sentada, como dizem, lá se foi "a máquina de fazer espanhóis". Tão linda, tão real, tão melancólica e suave ao mesmo tempo. Teve o poder de me fazer gargalhar em risos e choro.
Apos a leitura, a surpresa maior. O autor tinha a minha idade. Como assim? Uma pessoa de 40 anos escrevendo as dúvidas, tristezas e saudades de um velho de 80??? Como assim???
Um tempo depois, num encontro na Livraria da Vila, ele explicou que tem nele todas as perguntas de um homem de 80 anos. Só ainda não tem a necessidade urgente de respondê-las.
Após o encontro do grupo de leitura, ficou a angustiante sensação de quero mais. Queríamos mais. Entre trancos e barrancos de agendas, conseguimos encontrar um tempo nas manhãs dos nossos sábados e lá fomos nos, sentindo-nos meio extra terrestres, lançadas aos nossos "Saraus valter hugo mae". A obra agora, que tornar-se-ia nossa Bíblia, seria "O filho de Mil Homens".
Que delícia de encontros. Com valter. Com a obra. Com as outras. Com a gente mesma!
....
Abaixo alguns dos trechos dos tantos que nos arrancaram suspiros durante a leitura.
..............
"Pra dentro do homem o homem caía"
"Queria dizer meu filho, como se a partir da pronúncia de tais palavras pudesse criar alguém."
"e dizia que os amores lhe tinham faltado, mas que os amores não destruíam o futuro."
"Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende."
"A natureza, quieta a ser só inteligente e quieta, não disse nada, nem o Crisóstomo esperaria ouvir uma voz. A esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta."
"Amar era feito para ser uma demasia e uma maravilha"
"Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz."
"O homem que chegou aos quarente anos sorriu, e aquele sorriso já não era o mesmo do dia anterior. Já não era como nenhum outro do passado. Era o dobro de um sorriso."
"Mais as árvores, que ficavam quietas sem fazerem nada, só o barulho no inverno e a fruta no verão. Sem medo. As árvores mostravam apenas a espantosa paciência."
"Não era mulher de reclamar grandes atenções, e por isso não retinha nada de especial. Era como aproveitar o amor possível. O amor dos infelizes."
"Sentia que, se o filho vingasse, a sua vida valera a pena. Curava-se da tristeza e prosseguia no insondável que os filhos são. Os filhos, dizia, levam dentro famílias inteiras."
"A vida fazia-se à revelia da felicidade."
"A Isaura caminhou a sentir-se assim, perplexa e vazia, como se não fosse ninguém, apenas encantada percepção do que há no mundo."
"Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."
"O passado não corre. O doutor pensava o contrário. Pensava que o passado tinha pernas longas e corria, sim, e muito, como um obstinado a marcar a sua presença, a sua herança. O passado é uma herança de que não se pode abdicar."
"Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia:não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesteral. e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro."
"Ser o que se pode é a felicidade."
"Vinha do hospital. Talvez pensasse que a vida era curta. Demasiado breve para tanto procurar. Melhor seria se aceitasse o que havia como bastante. A felicidade podia definir-se assim. O bastante."
"Ela perguntou: o boneco tem nome. Ele respondeu: nao. Ela disse: que sorte, assim não precisa de ser ninguém. Quem não é ninguém não lhe falta nada. Nem lhe falta o amor, nem espera por nada."
"Pode não ser mentiras, mas apenas uma maneira diferente de acreditar."
"As pessoas eram assim mesmo, feitas de imprudências. Olhe, dizia a Rosinha, quem sabe se a imprudência é a felicidade."
"Achava que tinha um filho que era um certo deficiente do amor. Padecia de uma loucura dos sentimentos. Dizia por imprudência o que não tinha de dizer, não devia sequer acreditar naquilo."
"Se não esperarmos nada, dizia ele, tudo quanto existe é já abundância."
"Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és."
"Assim se ia calando, encostando sempre as dores aos móveis, frequentemente permanecendo apenas deitado, esperando."
"Mas quando se soube, estava lá, metida numa caixa, arrumada de flores e perfumes para fazer de conta que a morte era uma coisa bonita."
"Elevou as mãos num abraço e não contou mais pelos dedos se seria demasiado velha para aquela alegria esquisita, para aquele compromisso grande, para a abundância imposta por amar-se uma filha. Era necessária uma abundância de tudo, matéria, espírito e idade, para regressar a tempo de educar alguém. Não quis contar, nem pelos dedos nem por alto, o quanto arriscava com aquele sentimento, o quanto se vulnerabilizava, talvez tola, por uma esprança nova de voltar a ser mãe."
"Ela nunca fora amiga de ninguém. Vivera encurralada entre os pais, o gato, as hortaliças e o amor dos infelizes."
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Com Amor...da Idade da Razão
Sonhos de infância traídos? Baús de tesouros secretos enterrados na terra do quintal. Sempre mais seguros. Sonhos soltos por aí podem, tragicamente, tornarem-se frustrações, fardos pesados demais para serem carregados em maletas de notebooks compactos.
Hoje sou uma adulta chata que usa saltos, toma café, usa guarda chupa preto e adora brincar de quem consegue ficar quieto mais tempo. Se sou feliz? Sou. Se poderia ser mais feliz? Talvez.
Os sonhos de infância ficariam mais seguros em caixas forte. Protegidos da responsabilidade. Protegidos de um futuro cinza e com música ambiente.
Uma tábua de mandamentos que deveríamos seguir à risca:
- Nunca ter guarda chuva preto.
- Não ter duas canecas iguais.
- Escrever sempre com lápis de cor.
- Usar sempre batom vermelho com sabor de morango.
- Adotar meias Dancing Days para todas as ocasiões.
- Dançar em frente ao espelho, pelo menos, três vezes ao dia.
- Escova de cabelo é microfone; blusa cacharrel é cabelão.
- Nunca desistir de encontrar o príncipe encantado.
- Ser feliz para sempre, sempre.
- Morar num castelo encantado.
- Usar capa de chuva colorida, mesmo em dias de sol.
- Não deixar de testar o amor eterno nas pétalas das flores.
- Pisar em todas as poças dágua que cruzarem meu caminho.
- Levar todos os sonhos na cestinha da bicicleta.
- Nunca duvidar do poder da bicicleta me levar a outros mundos.
- Não esquecer o mundo que se vê do topo das árvores.
E...o mais importante...não esquecer que, estar perdido, pode ser uma grande aventura.
Assinar:
Postagens (Atom)























