quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sensibilidade Inteligente

"E, apesar de admirar a inteligência pura, acho mais importante, para viver e entender os outros, essa sensibilidade inteligente............
O que, suponho, eu uso quando escrevo, e nas minhas relações com amigos, é esse tipo de sensibilidade." Clarice

Busquei desesperadamente, entre os sábidos de "inteligência pura" algo que justificasse eventuais erros de ortografia, de concordâncias, bibliográficos, conceituais ou de outra natureza.

Porém segundo Quintana...
"Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!"
Agora que tenho dois leitores da raça "inteligente" que me conhecem, já me adianto a me desculpar...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Novo sofá

A vida anda corrida. Minha cabeça ontém parecia uma panela de pressão entupida com casquinha de feijão. Hoje tá melhor. Mariah está apaixonada. Tranca-se no quarto e com as poucas palavras que sabe escreve começa a alimentar seu diário...acho que o problema (Diário) é hereditário. Suspira e escreve o nome do "amor eterno" no mural de fotos.


A parede vermelha, tão solitária por anos, ganhou um novo sofá...bege, sóbrio...para não ofuscá-la. A sala ganhou vasos de plantinhas naturais e arranjos de paus de canela...e a casa perfumou-se. As janelas se vestiram de leves cortinas transparentes, para que não se escondam as árvores da praça. O retrato de Mariah ganhou moldura e descansa ao lado do meu (herança do pai). Na varanda esperamos a árvore crescer...e o manjericão segue forte. Os toureiros vão ter de esperar moldura.
E a vida corre!

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Igor

"Foi só você me olhar...apenas uma vez...que eu pude perceber,
que é fácil ser feliz!"
Acordei.
Por que cheguei lá? Não sei bem. Por que este desejo desde sempre? Não sei.
O que seus olhos disseram aos meus? Eu sinto, mas não decifro.
É verdade que existem sensações indescritíveis.
Sentimentos que se tornam levianos ao serem colocados em palavras.
Foi assim...simples assim...você estava lá, nos olhamos nos olhou e de repente parece que sempre fizemos parte da vida um do outro.
Agora, esse amor que já algum tempo estava dormindo dentro de mim desperta...desesperado. Você larga a bola (sua paixão) e pula no meu pescoço, perguntando (quase pedindo) se é hoje que te levo para casa...eu, já com os olhos embaçados, fico muda.
Você se alegra com tão pouco. Sua alegria vem de dentro e contagia.
Talvez você ontém tenha sido a travessa que eu estava esperando para me tirar da rua escura e triste que me encontrava, ou me perdia.
Você foi a minha praça arborizada.
Seus cachos, seus olhos negros brilhantes, os dentinhos pequenos sempre aparentes num sorriso constante. Sua expressão...apaixonante.
Seu abraço, seu carinho no meu cabelo, sua cabeça deitada no meu ombro...
acomodado, como se fosse lá que quisesse estar.
É assim que eu desejo que você fique para sempre.
Estar com você ontém me salvou.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dormindo.

Tristeza em preto e branco. Algo como nunca antes eu havia sentido. Não adianta buscar o sentido, isso só me deixa mais triste. Encolhida num canto da cama, durmo, como aliás nunca consigo dormir. Um sono profundo, fuga. Nasce o dia e as árvores da janela da sala não parecem tão bonitas. Tudo está cinza e a noite, negro. Não é saudade, não é medo, não é nenhum desejo não realizado...apenas tristeza. Será que é isso que chamam de "depressão"? Os sons me irritam. Procuro as músicas mais tristes. Tenho os pensamentos mais pessimistas. As olheiras ficam mais pretas, o olhar mais caído. Sem rímel nem batom. Ando devagar, penso devagar, falo devagar...reclamo rápido e de tudo. Parece que estou numa rua de mão única, sem travessas, não chega nunca ao fim, não encontro uma encruzilhada...sou obrigada a seguir em frente e não consigo mudar de direção. Não quero estar com pessoas. Não quero atender o telefone. Não quero falar, nem ouvir. Outras pessoas me incomodam, porque sei que este meu astral incomoda outras pessoas. Tenho a sensação que algo aperta meu estômago. Estou sempre com um nó na garganta. Falar no assunto de "maio" me deixa ainda pior, mas já começo a questionar se realmente teve poder para tanto. Cansada demais tento buscar eu mesma. Enquanto isso...durmo!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tempo e vida

Para o blog falta assunto. Para a vida falta tempo. Falta tempo para a amiga, para admirar o sol nascendo na varanda, para o vinho tinto, para meu filme favorito, para os cachos de Mariah, para o lápis de cor, para os sonhos. Falta tempo para o tônico facial e o hidratante para os pés. Sobra vida, falta tempo. Olho em volta e me angustio, ainda há tanto o que fazer...tanto para ver. Pirâmides, Francisco Brenant, Coliseu, Forte de Itamaracá, Petrópolis, Maria Luiza e Oscar Americano, Praça Castro Alves, Lagos Andinos. Destinos distantes no mapa, outros distantes da rotina frenética do ir e vir diário. Li poucos livros...tantas páginas ainda existem por serem lidas...só sei do que não sei. Assino os papéis que aparecem, não os leio. Vou deixando pessoas esquecidas pela vida. Sigo as placas...sem bem certo saber onde estou, nem para onde vou, apenas querendo chegar, o mais rápido possível. No meio do dia, páro, quieta e a sensação da qual tanto fujo me alcança. Têm sido dias de silêncio, de encontros e desencontros.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Desenhando você

Tenho numa parede especial de casa, em carvão um retrato que meu pai fez de mim. Quando cresci, mandei trocar a moldura e carreguei-o comigo como um tesouro, uma herança do dom que herdei dele. Neste fim de semana, a TPM me pegou de surpreza, estava só...eu, um bloco de canson A3 e uma bela caixa de lápis de cor...em rabiscos simples e muito suaves seus traços começaram a surgir no papel, inacreditávelmente, sua fisionomia, seu olhar compenetrado, uma boca suave sem contorno, face rosada. Aos poucos, olhava o desenho nascer no papel e me admirava, não era eu, ele simplesmente brotava do papel. Mudei a cor do cachecol e do gorro...e no verso farei para você uma eterna dedicação de amor!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ganhei uma janela

Casa nova. Caixas ainda fechadas. Vaso sanitário sem tampa. Papéis e copos perdidos. Quadros a pendurar. Ganhei uma janela, enorme...Barulhos novos, na nova rua. Acaba de passar um caminhão vendendo morangos. 20 Km mais longe...mais tempo para ouvir minhas músicas sozinha...quietinha dentro do carro, pensando, pensando.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Completo - Ivete Sangalo


"É tão bom ter alguém por perto, pra você se
sentir completo. Ter a mão que te leva pro futuro, vislumbrando um horizonte
seguro. É tão bom viajarmos juntos e viver aproveitando tudo. Amanhã vai ser melhor que hoje, novos sonhos ao amanhecer.
Imagino milhões de sorrisos, cada um com seu jeito de ser, mas ligados no mesmo
destino com amor, feito eu e você...O céu e o mar, a lua e a estrela, o branco e
o preto tudo se completa de algum jeito. Homem e mulher, a faca e o queijo, o
incerto e o perfeito...tudo se completa de algum jeito."





"Amanhã vai ser melhor que hoje"...ainda
choro com a cabeça deitada no travesseiro. Ainda não reconheço a cicatriz, ainda
não sei lidar com a lembrança...e feito gato machucado, saio arranhando todo
mundo...mas, AMANHÃ VAI SER MELHOR QUE HOJE.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Vinho Tinto

Na sala quase escura, brindo com uma taça de vinho. Vinho tinto que tem mais personalidade. Pode ser Carmenére, Cabernet, Pignonoir, Shiraz ou a nova descoberta, Pinotáge. Que seja gordo...quase licoroso. A rolha vai para o pote, celebrando mais um momento de voluntária solidão. Que me deixe a visão turva para que eu enxergue melhor. Que balance minhas idéias para deixar escapar meu sentimentos, minhas saudades, minhas frustrações.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Condição Humana

Condição Humana
(Linox)

Desculpe!
Mas não posso prometer
Que eu nunca vou te machucar
Porque!
Sob a dura
Condição Humana
Vivemos eu e você
Como sempre foi
Todo dia, um novo dia...
E se eu não for do jeito
Que espera que eu seja
Não veja isso
Como uma coisa ruim
Assim as nossas diferenças
Jamais serão nosso fim...
De repente num belo dia de sol, um dia qualquer da nossa vida, olhamos para o lado e percebemos que a vida não foi a que planejamos. Depois de alguns momentos de surpreza, talvez até decepção...percebemos então que pode não ser a vida que sonhamos, mas é a vida que vivemos. Talvez até melhor que o sonho. Talvez a vida.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A casinha azul

Hoje o caminho estava cinza. Parecia chuviscar. Chuvisco triste, manso e interminável. Caminho que já vai se tornando antigo. Casinha azul que aos poucos perde a cor, daqui há pouco já será um história, uma foto envelhecida. As salinhas vão ficando vazias. No chão as marcas das móveis que por tanto tempo ocuparam o mesmo local. Poeira antiga sob arquivos. As paredes peladas denunciam marcas de quadros e fotos que já estiveram ali. Lembranças impregnadas em madeira e esquadrias. A velha escada de madeira nobre observa tudo quietinha do seu canto.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Que delícia de rotina!

Dia desses acordei cedinho. Ainda era quase "de noite" como diria Maria. As janelas da sala ainda não têm cortinas (mas as paredes já têm quadros)...numa dessas manhãs, entre bisnaguinha com doce de leite e tito bem quentinho feito "com amor" parei 10 segundos para olhar pela janela. O inverno deixou as árvores peladas e entre os galhos eu vi o Sol nascer...até dá para acreditar que Deus existe.

Silêncio

"As vezes o silêncio tapa os burados
e o amor prossegue intacto..."

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Quero ser Diane Keaton

Quando eu crescer quero ser Diane Keaton.
Quero ter suas rugas em volta dos olhos, tornando-os ternos e tristes.
Diane com seu rosto genialmente inteligente. Sempre uma salada, bem temperada com ironia, aflição e dúvida. Quero ter uma casa em Hampton (seja lá onde isso for). Decorada em branco e azul claro. Sofás cheios de almofadas com estampa de porcelana. Quero ter cachepós prateados cheios de seixos brancos (ecologicamente incorretos). Ser uma dramaturga famosa (quem conhece algum dramaturgo??). Estou no caminho certo. Em "Alguém tem que ceder"´, a personagem "Érica" só dorme 4 horas por dia...eu estou dormindo menos que isso.
Creme Anna Pegova anti sinais para região dos olhos....0,0007 mg....R$ 168,00????

Poetinha

Um grande amor...Vinícius de Moraes! Nem sei de onde nasceu este amor...mas é real.
Quem me conhece, conhece a história:
se eu tivesse um filho, ele se chamaria "Vinícius de Moraes".
Ele morreu quando eu tinha 8 anos e sinceramente não me lembro de seu nome ser cultuado na cozinha da minha simples família que era mais chegada num Zeca Pagodinho.
"...que não seja eterno, posto que é chama...mas que seja infinito enquanto dure..."
Esta frase tão comumente usada para "casos de amor" deveria se estender a tudo:
Cada sentimento. Cada momento.
Cada abraço. Cada amizade.
Cada telefonema. Cada saudade.
As presenças e as ausências. As chegadas e as partidas.
Quero chegar ao céu ao som do piano de Tom
e receber das mãos de Viníciius um grande copo de wisky.
A minha geração terá que se contentar com
Toquinho tirando magistralmente os mais inusitados sons da sua viola.
Minha geração terá que assistir conformada a shows de Toquinho e MPB4...
"o pato pateta pintou o caneco...surrou a galinha...bateu no marreco..." quanta brutalidade. Teremos que rir das repetidas histórias de Vinícius, contadas com irritante intimidade por seu mais famoso discípulo vivo.
Vinícius que casou 9 vezes.
Que não se conformou com o amor de pijamas furados.
Amor que paga conta de gás. Amor de dentadura.
Que cria calos. A intimidade irritante de dividir o mesmo banheiro.
Amor que perde a chama.
Vinícius que buscou a vida toda o amor da poesia.
Vinícius que sofreu separações e buscas e com isso alimentou as mais lindas poesias do mundo.
"...mesmo amor que não compensa, é melhor que a solidão..."

terça-feira, 17 de julho de 2007

Alianças

A primeira em 89, prateada e muito fina, mostrava mais aos outros do que a nós mesmos, o nascimento de um compromisso.
Quebrou-se de tão fina. Em seguida veio outra, um pouco mais forte.
A segunda em 95, agora em ouro amarelo, num compromisso festejado com poucos familiares tornava oficial o compromisso, agora de dois jovens mais conscientes.
Em 2003 as duas amarelas unidas por uma branca simbolizava a separação do casal e a união da família.
Esta desapareceu misteriosamente.
A terceira em 2005, em ouro branco, foi pouco usada, simbolizada um laço que ainda se via frouxo...perdeu-se no hemisfério norte...a outra ficou guardada no porta jóias.
Nada significaram num amor que lutava para renascer.
A quarta em 2007, elo mais forte, mais consciente, em ouro branco e amarelo, com um pequeno diamante, simboliza só para nós mesmos o reencontro...neste momento tão particular.
Que esta dure.
Que o tempo não derreta.
Que não desapareça, que não se quebre.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Paraty...


A água do mar lava algumas ruas de Paraty ! Idéia de um dos urbanistas portugueses (sério) que ajudou na elaboração do projeto da cidade. A água tem permissão de entrar e levar embora toda a sujeira. As casas de Paraty têm mais portas que janelas...antes eram lojas, armazéns, ferrarias...hoje dá uma gostosa sensação de hospitalidade. Amyr Klink sempre começa ou termina suas viagens em Paraty. Dona Geralda, filha de um portugues beneficiado com o sistema de sesmarias, financiou a construção da igreja da Matriz (a terceira construída, depois de duas anteriores que ficaram pequenas para a população local e foram destruídas). Em troca, teria feito duas exigências: que fosse feita uma homenagem a Nossa Senhora dos Remédios e que os índios - Guaianás - que ajudariam (não voluntariamente) na construção da igreja fossem tratados com carinho. A Santa está lá, já os índios...não encontramos nenhum que pudesse confirmar se a segunda exigência foi atendida. Deixaram que os escravos construíssem também uma igreja para uso próprio (além das que construíam para os brancos) A Igreja Nossa Senhora das Dores. Acabaram caprichando mais na sua própria e hoje é considerada a mais bonita...no teto tem um abacaxi disfarçado...era símbolo da família real: "a fruta coroada" eles não podiam usá-lo também. Algumas fachadas são ornamentadas de pedras amarelas trazidas de Portugal como lastro. Os návios eram construídos para navegarem cheios...na vinda, para manter a estabilidade, enchiam seus porões de pedras...chegando aqui tinham que enfiá-las em algum lugar. O triângulo da Maçonaria está presente nas cantoneiras de pedras nas encruzilhadas.
Em Paraty sorri mais do que chorei, mas chorei. Tomei vinho bom. Usei meu xale preto e minhas botas toc toc toc. Deixei que a água entrasse e lavasse a sujeira. Entendi que para o que não há remédio...remdiado está.

"Pastinha Clarice"

Na prateleira da papelaria escolhi uma pastinha branca com elástico nas pontas. Nesta pastinha vou colar uma etiqueta com seu nome "Clarice" e nela vou guardar, sempre à mão, recortes do primeiro livro seu que li: Aprendendo a Viver.
Nunca se sabe quando a vida vai exigir da gente um pouco de sabedoria...nunca se sabe, na falta de sabedoria própria, vou guardar a sua...na minha pastinha branca, com elástico nas duas pontas, bem segura, que é para não correr o risco de perder sabedoria poir aí.
Segue nos próximos posts, para quem quiser espiar dentro da minha pastinha, os meus recortes...mas cuidado hein...não vai espalhar minha sabedoria emprestada por aí!

ANONIMATO - Clarice Lispector

" Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho."

ESCREVER - Clarice Lispector

"Não se faz uma frase. A frase nasce."

"Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação."

"Uma coisa que já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar por um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir."

MÁQUINA ESCREVENDO - Clarice Lispector

" A coisa era branca, muito branca. E, sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima, para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E li perto ficou, de coração batendo."

AO CORRER DA MÁQUINA I - Clarice Lispector

" O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. E, para sofrer menos, embotar-me um pouco. ...... Há coisas que jamais direi: nem em livros e muito menos em jornal. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam de coisas que a gente não pode contar a muitos, há outras a poucos, e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente....... É tão difícil falar, é tão difícil dizer coisas que não podem ser ditas, é tão silencioso. .... Depois eu percebi que para essas pessoas esses momentos de nada valiam, elas estavam ocupadas com outras. Eu estivera só, toda só. é uma dor sem palavra, de tão funda."

BICHOS I - Clarice Lispector

" Ter uma CORUJA nunca me ocorreria. Mas uma amiguinha minha achou por terra na mata de Santa Tereza um filhote de coruja, todo sozinho, à míngua de mãe. Levou-o para casa, aconchegou-o, alimentou-o, dava-lhe murmúrios, terminou descobrindo que ele gostava de carne crua. Quando ficou forte era de se esperar que fugisse imediatamente mas demorou a ir em busca do próprio destino, e de reunir-se aos de sua raça: é que se afeiçoara essa estranha ava à minha amiguinha. Relutou muito, via-se: afastava-se um pouco e logo voltava. Até que num arranco, como se estivesse em luta consigo mesmo, libertou-se voando para as profundezas do mundo."

UM EXPERIÊNCIA - Clarice Lispector

"Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão de outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado. Senti-me então como se seu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada. E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podem agredever. Então eu, o tigre, dei umas voltas vagarosas em frente à pessoa, hesitei, lambi uma das partes de depois, como não é a palavra o que tem importância, afastei-me silenciosamente."

UM REINO CHEIO DE MISTÉRIOS - Clarice

"... O reino vegetal não tem inteligência e só tem um instinto, o de viver. Talvez essa falta de inteligência e de instintos seja o que nos deixar ficar tanto tempo sentada dentro do reino vegetal."

CONVERSA DESCONTRAÍDA: 1972 - Clarice L.

"... Nestes momentos de 'agora mesmo' estou vivendo tão leve que mal pouso na página, e ninguém me pega porque dou um jeito de escorregar. Tive de aprender."

ESTADO DE GRAÇA - Clarice Lispector

" Também é bom que não venha tantas vezes quanto eu queria. Porque eu poderia me habituar à felicidade - esqueci de dizer que em estado de graça se é muito feliz. Habituar-se à felicidade seria um perigo. ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o são, menos sensíveis à dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisam - tudo por termos na graça a compensação e o resumo da vida."

LIÇÃO DE FILHO - Clarice Lispector

"...De surpresa de descobrir uma alma insuspeita, fiquei com os olhos cheios de água, na verdade eu chorava. Percebi que meu filho, quase uma criança, notara, expliquei: estou emocionada, vou tomar um calmante. E ele: - Você não sabe diferenciar emoção de nervosismo? você está tendo uma emoção. Entendi, aceitei, e disse-lhe: - Não vou tomar nenhum calmante. E vivi o que era para ser vivido."

SENSIBILIDADE INTELIGENTE - Clarice Lispector

"E, apesar de admirar a inteligência pura, acho mais importante, para viver e entender os outros, essa sensibilidade inteligente. Inteligentes são quase que a maioria das pessoas que conheço. E sensíveis também, capazes de sentir e de se comover. O que, suponho, eu uso quando escrevo, e nas minhas relações com amigos. é esse tipo de sensibilidade. Uso-a mesmo em ligeiros contatos com pessoas, cuja atmosfera tantas vezes capto imediatamente."

Medo da Eternidade - Clarice Lispector

"Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem que espécie de bala ou de bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Tome cuidado para não perder, porque essa bala nunca se acaba. Dura a vida inteira. - Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa. - Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de história de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer, Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca a bala ainda interira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocenter, tornando-se possível o mundo impossível que eu já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boa. - E agora que é que eu faço? - perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver. - Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto que você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários. Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola. - Acabou o docinho. E agora? - Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chcile mastigado cair no chão de areia. - Olha só o que me aconteceu! - dizze eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou! - Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente por ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá. Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envorganhada da mentira que pregava dizendo que o chivle caíra da boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."