quarta-feira, 30 de maio de 2018

nãos

a vida é cheia de não
não corre
não vai embora
não
não exagera
não modera
não
não se esconda
não se mostre
não pinte a boca
não fale alto
não cale
não

tempos de nãos
mas tempos de sins

segunda-feira, 12 de março de 2018

a vida é tão clichê


marília, eu não te conheci. talvez de vista, comendo um enroladinho de queijo e presunto na padaria. certamente admirei seus cachos românticos - e, ironia, hoje sei que você não era nada romântica.

seria o tipo de pessoa que nunca chamaria minha atenção de forma positiva. faz parte de um grupo que faço questão de blocar como 'antipático'. as tais professorinhas....

mas a morte te pôs no palco. na corda. na luz. a morte te levou como leva a tantos. prematuramente? injustamente? sem dar satisfação.

adeus, marília.

terça-feira, 6 de março de 2018

quando descobri que não era a melhor

quando eu tinha uns 11 anos, em um jogo de handball, descobri que não era a melhor do mundo. até aquele dia, tinha sido.

minha família morava na melhora casa. meu pai desenhava jesus cristo. minha mãe tinha um carro de quatro portas azul turquesa. eu era a melhor aluna da escola. todos e todas queriam ser meus melhores amigos.

naquele maldito jogo, a implacável professora acabou com a minha invencibilidade perante a vida.

'- eu vou ser a atacante.'
'não. não vai.'
'não? por quê'
'porque a rita é a melhor.'

emudeci. recalculei a rota da vida....e segui.

saudade da Monga

devia ser década de 80 e eu devia ter 8 anos. eram férias e estávamos na casa da Penha. a cada tinha uma bancada de pastilhas amarelas na cozinha. a casa ficou jovem para sempre. Penha tem Alzheimer, não lembra de nós nem da casa ou das pastilhas.

passeio de pobre, férias na casa da Penha e passeio noturno à feirinha, lá fomos nós. eu era a mais velha, naturalmente mais corajosa, de todos os primos. a Monga era uma gorila assustadora que surgia dentro de uma jaula. diziam - nunca vi (deus me livre) - que era um truque de espelhos que fazia uma mulher transformar-se numa gorila. nunca entendi como acontecia aquilo nem o que era show de mágica. mas tudo bem, há coisas bem mais importantes que eu também nunca entendi.

tive medo. não entrei. disfarcei. desviei. (fiz isso outras vezes também ao longo da vida). à noite, quando o silêncio torna as verdades mais evidentes, tive enjoo. na infância, medo chamava enjoo. continuou chamando depois. no meio da madrugada, cutuquei a mãe. mãe de três, nem se assustou, sempre tinha alguém cutucando. 'tô com enjoo' - 'deita de bruço que passa' - acatei. deitei. não passou.

outra vezes na vida. bem depois dos 8. tive enjoo. deitei de bruços e não passou. mãe continua dizendo que vai passar. continua não passando. deito de bruços. deito de costas. olho do lado e a Monga continua lá. não passou. não passa.

saudade da Monga.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

assistindo a algumas pessoas assistirem a um show?


como muitos da minha geração, ouvi Phill Collins a vida toda. sempre achei que ele tinha cara de gente boa. de um cidadão comum que poderia, facilmente, morar no meu condomínio.
não acompanho de perto agendas de shows, mas não lembro de ele ter vindo antes fazer show em São Paulo. quando soube deste, manifestei vontade de ir. meio que só para marcar no check-list de coisas para fazer antes de morrer.

cheguei. sentei. um palco distante. um show de entrada. várias moças da minha idade (que sempre acho que mais velha) felizes, dançantes, loiras e tirando selfies. ando intolerante. muito intolerante.
o valor dos dois ingressos se aproxima do custo de um salário mínimo. vocês, aqui, sabem que minha vida não é fácil e que fortes vendavais aterrorizam no horizonte.

o que eu estava fazendo ali?

muitos efeitos especiais (talvez um pouco demais). ele cantou (ok!). músicos tocaram (!). a platéia cantou, dançou e, sobretudo, tirou muitas selfies para postar no facebook.

eu chorei, mas não sei se foi de emoção.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

um dia ela nasce, no outro, ela vai embora


nunca fui modelo de apego de mãe. quem me conhece sabe disso.
não sabia bem o que fazer com você (nem comigo) quando você nasceu. não sabia ser mãe, ninguém me ensinou. não estava preparada para crescer e assumir um papel tão importante. antes já haviam me dito que eu fugia de grandes responsabilidades. este fato só colaborou para provar isso.

você foi crescendo, apesar de pouco, cresceu. eu vivendo, trabalhando, sem ter muito tempo para prestar atenção nas suas birras e independências. hoje, você me surpreende. é mulher forte. 1,50 cheio de opiniões e ideias. realista. surpreendente e linda!

em uma foto bem sem graça, você está meio desenchavida de uniforme escolar indo para seu primeiro dia de aula em uma grande escola (média talvez). a maria chiquinha meio torta de mãe que não tem tempo. all star vermelho que depois seria sua paixão para sempre. uma parede branca atrás. parede brande de uma casa que ficou para trás, fechada e cheia de tristes histórias. você, de saia azul marinho protocolar, em frente da parede branca.

milênios se passaram depois desta foto, depois desta parede.
nesta semana, você caminhou sozinha para a maturidade. psicologia por escolha própria. a minha seria arquitetura, mas você teimou que não enfrentaria a bendita matemática. resignada, aceitei.

aí está você entrando. um portão grande e você pequena. não veja sua mão, mas veja sua cabeça erguida. não pior que ninguém. menos medo que eu (certamente). passos cuidadosos (sempre foram os seus). firme.

você talvez nunca saberá o orgulho que tenho de você. ou sabe e eu que não sei?

te amo. vou ficar aqui te olhando entrar pelo portão...sempre!


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Cecília Cacilda

Cecília, que nasceu Cacilda.
Ela não desejou nada. O destino a jogou para o lado de cá. Ela veio. Ficou.
Nunca se rendeu à língua.
As roupas são velhas.
As rugas sempre estiveram aí.

Ela sobreviveu.

O amante de Lady Chatterley 0 de D. H. Lawrence

"Foi uma noite de paixão sensual, em que ela ficou um pouco surpresa, e quase forçada: ainda assim trespassada mais uma vez por sensações profundas de sensualidade, diferentes, mais vivas, mais terríveis que as emoções de ternura, porém, naquele momento, ainda mais desejáveis. Embora um pouco assustada, deixou que ele fizesse o que queria, e aquela sensualidade ousada e sem pudores abalou-a profundamente, deixou-a nua até o cerne a a transformou em uma outra mulher. Não era exatamente amor. Não era voluptuosidade. Era uma sensualidade penetrante e ardente como o fogo, transformando toda a alma em combustível.
E consumindo totalmente seus pudores, seus pudores mais profundos e antigos, presentes nos lugares mais recônditos. Custou-lhe muito esforço deixar que ele fizesse o que queria, impondo-lhe sua vontade. Ela precisou reduzir-se a um estado de total passividade e complacência, como uma escrava fisicamente subjugada. Ainda assim a paixão ardida em torno dela, voraz, e quando a chama sensual lambeu suas entranhas e seus seios, ela realmente teve a impressão de que morria: mas uma morte magnífica e pungente."

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

as próximas páginas depois do meio da brochura

Em dezembro de 2011, às portas dos quarenta, eu escrevi este texto:

http://cochichodemaria.blogspot.com.br/2011/12/o-meio-da-brochura.html


Tenho uma expectativa (otimista) de viver até os 80. Estou, portanto, chegando ao meio da brochura. Não sei se relacionado a esta constatação ou não, mas fato, tenho tido dias de tênue depressão (ela me cercando e eu dormindo para escapar dela).
Folheando as que seriam então as 40 primeiras páginas não consido encontrar muitas que mereçam um post-it de marcação. Tive poucos momentos dignos de um post. E isso fica mais do que óbvio pela regularidade de postagens neste meu tão abandonado blog. A vida "das pessoas" sempre me parece tão mais interessante que a minha...
Levando em consideração o fato de que, as folhas entre os 20 e os 30 deveriam ter sido as mais agitadas, entro em pânico. Pois, a tendência é que as próximas sejam ainda mais irrelevantes.


e agora, cinco anos depois, como foram as próximas páginas?

perdi 30 quilos. certamente as certezas que abandonei ao longo dos últimos anos pesavam. passei de loira à ruiva, opção menos óbvia e mais excêntrica (uma liberdade). abandonei certezas, adotei dúvidas como parte construtiva (e divertida!) da vida...abri novas portas, descobri novas estradas.

minha biblioteca se multiplicou...mais e melhores...pesam nas prateleiras e nas minhas decisões. ainda luto por descobrir Pessoa. Mia virou uma amor eterno. Florbela, Clarice, Jane Austen....hoje, sou um pouco todas elas....

me descobri liberta...abandonei os grilhões. descobri que a Hebe é legal e será eterna. entendi que não preciso herdar os ódios maternos. criei meu próprio gostar. abracei a irmã incompreendida e hoje a rebelde sou eu.

abandonei os antigos ternos pretos que me faziam invisível. ganhei óculos vermelhos que me destacam. hoje vivo meus dias caçando erros, imperfeições...aprendi com isso a lidar de forma mais leve com os meus próprios. vejo meus defeitos como pontos vermelhos no meu ser antes tão sem cor. sei que sou um ser em construção e planejo cada tijolo

me rendi aos bojos avantajados dos sutiens ousados...e belos...às calcinhas fio dental...sou mais sexy hoje. alguém percebeu isso?

 descobri que andar nas calçadas espiando o interior dos quintais pode ser divertido. ler nos meus trajetos. observar as pessoas do metrô. descobri que gosto de gente.

Jeneci é uma conquista recente. Menage a trois também. sim, transei com uma mulher...e foi bom.


terça-feira, 4 de outubro de 2016

sem que nem porquê

há alguns dias morreu um ator global. quando morreu, era protagonista da novela das 9h, o que equivale no Brasil, a ser praticamente da família real. a novela era gravada na regiao do Rio São Francisco. quase no fim da novela, galã nadava no rio com a mocinha e o rio o engoliu. assim. sem que nem porquê.

há alguns dias, também, Andréa morreu. tudo deveria ter dado certo na vida dela. era linda, estudada e loira. casou, mas o marido cansou. ela ficou sozinha. na quinta-feira, no trabalho, coração falhou e ela morreu. assim. sem que nem porquê.

eu, em tempos de planos a longo prazo ameaçados, fiquei pensativa. o longo prazo é só a soma de dias e dias e mais dias. só isso. nada mais. no meio do longo prazo pode sempre aparecer um rio ou um coração. sem que nem porquê.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

eles comemorando a vida



de quando em quando, penso no blog abandonado, porém, jamais esquecido. são tantas as coisas que acontecem, mas nada de espetacular que mereça holofotes de celebridade, será?
a vida acontece em cores. aos domingos. na fresta de sol. nos sorrisos impagáveis deles. nas comemorações sem motivo. no quebra-cabeças.
a vida também envelhece. vai ficando quieta, rabugenta, solitária e cada vez mais preguiçosa...
de um lado ela pulsa, do outro, ela esmaece...vai perdendo a cor, desbota.

o amor continua amor. cada vez mais amor. cada vez maior e mais tranquilo. acomodado, paciente, tolerante e lindo. o amor eterno pintado em cores de eternidade.

eles crescem. os três, juntos. ontem, um deles comemorava na varanda - nem me lembro exatamente o que - e os outros dois ouviram. de repente, a correria e a tripla comemoração. do quê? mas o que isso importa? eram os três, de braços para o alto, comemorando!!!! e nós, em volta, nos emocionando.

eles ensinam o tempo todo. temos mesmo que esperar motivos para comemoração?

terça-feira, 22 de março de 2016

mais que eu

você já se sentiu como se a vida não coubesse na sua vida?
já desconfiou que houvesse mais da vida escondida em algum armário secreto?
você já quis olhar a vida do alto de um balão, sem destino e devagar?
já quis redesenhar o passado?
já quis não planejar o futuro?
você já quis trocar de roupa no meio do dia?
já quis tirar a roupa e desfilar nu de verdades?
você já quis mais do que você?
já desejou mais do que eu?
você já quis fugir?
já quis não ir?
você já se procurou em outra história?
desejou olhar por outra janela?
escrever outro livro?
ser outro personagem?

eu já!

terça-feira, 8 de março de 2016

dia da mulher?

as flores são fotografias com filtro
as flores não cheiram mais
as homenagens virtuais são fartas, mas falhas

falta

falta sua

no meio do dia, cresce a falta
a falta de quem falta
só a falta existe
só a falta é presente hoje

quanto falta algo em alguém
você faz falta

falta dos nós
dos nós de nós

falta o tudo
falta o não falar nada e falar tudo
falta o ponto final ... 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Relatos de felicidade



ela é uma
eles, três
ela chega e nem as rugas e a cara nem sempre simpática os assusta
ela chama, eles vêm
vêm e sentam
sentam e contemplam
no sotaque arrastado, ela ainda conta histórias que lembra da distante infância
eles assistem
assistem quietos
curiosos e quietos
carinhosos

na porta da casa da mãe, aos domingos, sempre tem uma fresta de sol vespertino e reconfortante.
a gente almoça, come bolo preto e branco...toma café na xicrinha de ágata
aí a gente senta no degrau
num momento desses, de fresta e de degrau, eu vi a cena
a tecnologia - muitas vezes injustiçada - permitiu-me o registro
registro de emoção

em breve, ela vai embora
eles ficarão
a cena, para sempre

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

E agora, Benedito?

O personagem errou o texto.
O cenário desbotou.
A música entrou na hora errada.
E agora, José?

Meu roteiro era perfeito. Previsível e amarradinho.
Mas por que, afinal, Benedito, você foi errar o caminho?

O céu devia estar azul.
Quem pintou essas nuvens aí?
Onde foram parar meu arco-íris e minhas gaivotas?

Maria que amava João que amava Ana...se casava no final.
Ana iria morar em Portugal.
Mas Maria chora sozinha...onde foi que você errou, Maria?
E José, para onde foi?

O avesso do bordado tá todo emaranhado.
Caixas fazem pilhas instáveis nos armários.
As roupas estão amarrotadas e já não se abraçam.

E agora, Benedito?




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Adeus, Yara

Mandei trocar os crisântemos por outra flor. Uma flor que conheci naquele instante. Agora já não me lembro do nome, mas no momento me pareceu importante.

Pessoalmente, não gosto da aparência do crisântemo, nem tampouco do cheiro. Tadinha da feinha fedida, foi preterida.

Crisântemos me remetem à ideia de morte. Estranho hábito de negar o óbvio, até no mais banal detalhe. De repente, aquela opinião (de quem já não pode opinar) tornar-se a mais imprescindível.

O rosto enrugado, arroxeado e cansado, quase aflito, pedi para maquiar. Não ficou uma ruga no seu rosto. Nem mesmo ao redor dos olhos. Fecharam a sua boca que antes estava aberta. Pintaram-na com um coral suave. 
No canto esquerdo da sua boca havia um pequeno machucado cor de canela, mas sua aparência era de extrema tranquilidade. Minha mãe usaria o adjetivo “serena” (acho que o usou). Minha mãe, uma mulher de tantos adjetivos, sempre usa o mesmo para os mortos. Acho que por não termos muita intimidade com a morte, a tratamos de uma maneira formal e usamos, para ela, sempre os mesmos adjetivos. Serena.

Quando, naquele subsolo escuro e triste, vi sua boca aberta, fiquei com a angustiante impressão de que, talvez nos últimos momentos, você tenha lutado pedindo para o ar entrar. Agora penso talvez que sua luta fosse para não deixar o restinho de você partir. Você foi uma lutadora, mesmo quando já não havia vida. Rendeu-se quando já não via motivos para escapar. Partiu. Quieta. Serena.

As flores, o manto de cetim que cobria suas pernas, o véu: tudo era branco. Escolha óbvia pela paz. O terço era azul. Estava na sua cabeceira. Gostaria de saber a sua história. Certamente era sagrado. 
Quem o teria abençoado? Não sei. Queria que fosse um novo, mas não havia tempo. Que bobagem tentar pintar a tristeza de branco.

Entre suas poucas peças de roupa, insegura, escolhi uma camisa roxa. Sempre soube da sua preferência pelas cores claras, mas escolhi a roxa. A insegurança, aquietei. Mandaram-me levar fraldas, sem entender, obedeci. A morte é um mistério e esta seria apenas uma das coisas que eu não entenderia naquela madrugada quente, em que eu, misteriosamente, morria de frio.

Havia dois lindos arranjos de flores à sua volta. Um deles expressava o amor da família, o outro, do esposo que você ainda acreditava ser seu. O esposo, que já não era seu, sempre foi o mais emocionado durante a cerimônia. Com você partia também grande parte das lembranças dele. Nem todas boas, nem todas ruins também. Não foram poucas as vezes que eu o vi recorrendo ao antigo lenço de pano, para tentar esconder a saudade.

Suas mãos estavam arroxeadas, sofridas, machucadas e seguravam-se ao terço azul. Mãos pequenas, magras e tristes. Machucadas demais, como todos nós.

No pescoço, restaram alguns pontos de uma última tentativa de resistência. Procurei esconder fechando o colarinho da sua blusa roxa. Nos últimos momentos tentei dar todo o carinho sincero que eu achava que fiquei te devendo. 

Desculpe se não foi suficiente, nunca é. Desculpa se não fui suficiente, nunca sou. Saiba que, pelo simples fato de usar usar tailleur caramelo, retocar as sobrancelhas e nunca deixar cair nada, você é, para mim, digna de muita admiração. Acho que nunca te disse isso.

Fica tranquila. Parte sossegada. Vou tentar cuidar das coisas que você deixou no caminho.

Talvez não seja tão caprichosa como certamente você seria. Certamente deixarei cair umas peças, quebrarei algumas. Nem, certamente, tão delicada. Mas saiba que vou tentar ficar com um pouco de tudo o que eu, mesmo sem saber, admirava em você.


Partida de Yara, em 21 de setembro de 2015.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

passado passado a limpo

tento, não sei se sempre consigo, não maquiar meu passado
foi o que foi
perigosa narrativa em primeira pessoa
a avó era brava e distante
a casa esquisita
a janela pequena
os amigos, pobres
alguns piolhentos
os primos, cruéis
o tio, nada a declarar

conheço gente que passa o passado a limpo
o quintal com cheiro de galinheiro vira Versalhes
o tio bandidão vira mocinho intelectual
o irmão cruel, como a maioria dos irmãos, vira mentor
que preguiça
não tente me enganar
eu sei o que você fez no verão passado

desconfio de narradores com passados brilhantes
famílias perfeitas
casas com papel de parede florido
desconfio de amores perfeitos
de cães com franja
de almofadas de croché


quinta-feira, 25 de junho de 2015

traída pelas lembranças



lembranças...
fui lá buscá-las, mas não as encontrei
no lugar das paredes azuis, encontrei uma laranja vivo
as salas pequenas, meio antigas, com pisos de madeira
agora são coloridas...amplas...barulhentas
cortinas de um abóbora vivo tingem a sala com uma luz vermelha, suspeita
encontrei mesas pequenas e grupos concentrados
muitos alunos andando com mochilas nas costas, pareciam em trânsito
não pareciam pertencer
não como nós pertencíamos

são novos desenhos que apagam os das minhas lembranças
mudaram a planta e não me consultaram
fecharam uns cantos de quintal
sumiram com um banco onde eu vivi meu amor eterno dos 12 anos

os muros que nós pintamos não está mais lá
o alambrado que pulamos sumiu
cobriram a entrada
abriram os portões que nos continham

está tudo diferente
esperava encontrar lá minhas lembranças
era a minha última esperança de refúgio do passado
guardei esse refúgio
nunca mais havia voltado lá

nem devia ter....

sábado, 20 de junho de 2015

especiarias da maturidade




agora meu andar é mais lento
é lendo
um passo  ...    outro passo  ...    mais um...
já não me cansam tantas corridas urgentes...e inúteis 

menos café, e café com menos açúcar. café sem bolo
vida menos doce
o tempo que mostra a doçura de outros ingredientes...especiarias da maturidade

o sono é melhor. já não brigo
aceito. aceitação
acordar ainda é desafio
o consolo no desenho dos primeiros raios de Sol na parede vermelha
a vida vale seguir vivendo

meus textos têm menos virgulas e menos adjetivos, cada vez menos adjetivos
menos é mais, sempre
ninguém me critica pela falta do brinco ou perfume
mas não ouse colocar uma vírgula entre meu sujeito e meu predicado
advérbios seguem soltos, sem vírgulas...desafio diário
as maiúsculas sumiram...daqui, pelo menos
optei, estilo...especiarias da maturidade...

reticências em em pontos finais
mudou o escrito? sumiu o medo?
não sei. já não preciso...especiarias da maturidade

metas ousadas...sem pressa
caminho. caminhar
hoje, menos peso
cabelos mais vermelhos...canela...especiarias

quero o que eu quero. hoje, sei o que é
o que eu quero e o que é bom pra mim
o que eu quero é o que é bom pra mim
sujeito, enfim!

bebo dos minutos e do voo dos tsurus....invejável rotina

gramática, por prática
literatura, por paixão....especiarias da maturidade

Onde está mesmo a nuvem que andava por aqui?

sexta-feira, 12 de junho de 2015

a autonomia do sorvete

em casa, bala era à vontade
pêssegos em calda e danone também
não eram luxo
era assim...todo dia tinha, simplesmente tinha
numa outra casa que frequentávamos, pêssego era luxo
e danone, não tinha
naquele tempo, eu não entendia o porquê, mas hoje entendo

em casa, não precisava pedir para comer bala
para tomar sorvete, precisava
sorvete era censurado
não racionado, mas censurado
o sorvete guardava os últimos resquícios da autoridade materna

eu, submissa, respeitava a censura
sempre, sempre que me dava vontade de sorvete
submetia meu desejo a instancias superiores
a resposta era sempre sim
e eu sempre consultava, mesmo assim


ainda lembro do gosto doce que teve meu primeiro sorvete subversivo

assim como clarice
que conheceu a eternidade através do chiclete
eu conheci a liberdade
através do sorvete

terça-feira, 2 de junho de 2015

momento presente


quero registrar este momento, assim, no presente.
esse momento presente. um presente de momento.
falo isso há alguns dias...e há alguns dias tenho medo que a paixão derreta entre meus dedos.
o dia a dia tem esse poder, inevitavelmente cruel, de derreter paixões.
tempos de adoçar o olhar. de olhar menos corporativo. de amar. de ser doce e mais tranquila.
será que consigo?
quero tentar, pois é aqui que quero estar.
essa sensação, que ainda me contém, de estar no lugar certo, de pertencer.
alguém já me disse isso aqui, no quintal que já é meu, pra minha alegria.
há alguns meses, quando passei pela primeira vez por aquele portão estreitinho, pensei: "tomara!"
o tomara aconteceu.
aqui estou...todos os dias...
ainda agradeço ao passar, todos os dias, por aquele portão estreitinho.
naquele tempo achei que não me cabia.
achei que não passaria.
respirei fundo, me apertei, revi minhas expectativas e defini: é lá que eu quero estar.
quando me chamaram, nem me surpreendi, de alguma forma eu sabia que o lugar me esperava.
talvez do lado de dentro, tenham demorado um pouquinho mais pra entender, mas o que importa é que entenderam, e hoje, estou aqui.
entre tsurus e livros pendurados em elásticos, entre textos e cartazes, entre ideias e olhares poéticos, entre sorrisos de crianças, entre sonhos de futuro, poesia e poesia.
salas brancas e grandes janelas verdes.
ateliers, arte e música.
potes coloridos
mãos carimbadas em paredes.
sonho estampado nas cortinas.
um ar, inacreditável, de passado que quer ser futuro.
com uma janela à minha esquerda, pela qual, passa gente sorridente o dia todo.
uma chefe que fala manso, que tem coração e sabe usá-lo.
uma nova cynthia. redescobrindo-se...todo dia!


Com o tempo, você acaba se acostumando.....
A acordar antes do sol
Ao ônibus lotado
À comida meio fria
À roupa meio colada
Ao pouco amor
Aos óculos na ponta do nariz
À distância segura
À conveniência do silêncio e da pouca luz`
À não respostas
A fazer menos perguntas
A andar rápido
A andar devagar
A não andar
A dormir pouco
A desfrutar da insônia
A evitar carboidrato
A resistir a paçocas e a clichés
A beijar pouco a filha
A ler menos do que gostaria
A desconfiar da poesia
A viver mais do dia a dia
A comer a carne mal passada
A andar nas mesmas ruas
A nova ortografia
A deixar o passado passar
A deixar o futuro acontecer
A precisar de menos
A querer demais
Ao café sem açúcar
Com o tempo, você acaba se acostumando....
Que pessoas magoam muito
Que poucas se desculpam
A esquecer
A querer esquecer
Com a ideia de que você não é a melhor irmã
A melhor filha
A melhor mãe
A melhor jogadora de basquete
Que seu texto não é o melhor
Que você não é mais a miss primavera
Que seus olhos não são os mais azuis
À mediocridade confortável
À parte mais baixa do pódio
A viver à sombra dos holofotes

Com o tempo você acaba se acostumando....

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Silêncios

"O silêncio é a gente mesmo demais". (G.R.)
Quando eu era pequena, ficava curiosa quando eu via amigos, frente a folhas gigantes, fazendo desenhos minúsculos. 
Uma vez, tentando ser um não eu, desenhei pequenininho. 
Bem pequenininho. Sobrou um tantão de folha. Botei passarinho. 
Só a silhueta, porque, como você bem sabe, odeio passarinhos. 
Não vida também sou assim. 
Tenho problemas com espaços vazios. Encho de passarinho.
Problema é que, dependendo do passarinho, faz um barulho danado...e caga. 
Pior! Às vezes, tudo isso ao mesmo tempo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

noite sem fim

há dias, dia-a-dia adia,
vida que voa, tão à toa...tão à toda...

tristes noites geladas
não é climático, é fatídico
a tartaruga ainda arfa e ainda faz todo sentido
poesia fria, triste e fatalmente noturna
a vida à toa, escura
noite de uma escuridão sem fim
mas tem fim a noite?
mas tem noite o fim?

a poesia da poesia à poesia
sem sentido de mim
faz sentido em mim

laços intensos
quadros inevitáveis?
temidos
distantes e recentes
laços amargos
noite sem fim.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Eu não me canso de nada!

Ontem, no final da tarde chuvosa e do dia interminavelmente triste, alguém me disse: "você acaba cansando". Prontamente respondi: "Não, eu não me canso de nada."

A conversa acabou, mas o eco dessa revelação caminhou comigo sob a chuva. No silencio da rua escura, o barulho na minha cabeça era ensurdecedor. Era eu mesma querendo gritar algo pra mim. Era eu mesma fugindo pra não ouvir.

"Eu não me canso de nada."

Eu ouço as mesmas músicas que ouvia na adolescência. Coletâneas repetidas. Eventualmente, porém raramente, novos intérpretes por simples curiosidade, mas sempre as mesas melodias, as mesmas letras, as mesmas poesias. A mesma Água de Março fechando o verão. O mesmo Barquinho que vai e volta na voz miúda. O mesmo banquinho, o mesmo violão. A mesma Garota, hoje já idosa, desfilando pelas mesmas ruas de Ipanema. O mesmo amor que Não é eterno, posto que é chama, mas que é infinito enquanto dura. O mesmo Samba que ainda é uma forma de oração.

Eu moro no mesmo bairro desde que nasci. Ando nas mesmas calçadas, nas mesmas vielas. Passo sob as mesmas árvores. Frequento a mesma padaria. Enfrento a mesma ladeira com os mesmos paralelepípedos. Me deslumbro com o excesso de ofertas de novos títulos da mesma antiga banca de jornais. Encanto-me com as poucas fachadas que sobreviveram aos novos moradores. Respiro a nostalgia que dá perfume ao bairro de imigrantes. Já conheço poucos rostos. Pouquíssimos rostos ainda me conhecem. Hoje os carros na avenida são bem mais velozes, mas hoje andamos bem mais devagar.

Os meus amigos me viram crescer. Viram a menina séria e dedicada transformar-se em alguém que cobra da vida poucas certezas. A menina de ontem, já não é a melhor da classe, nem a mais popular ou a mais bonita. Já não é rainha da primavera. Ainda falamos da mesma escola, que agora tem o muro enfeitado com caquinhos de mosaico e nova proposta pedagógica. Relembramos os mesmos professores, contamos as mesmas histórias. Conhecemos os pais, irmãos, casas, hábitos. Conhecemos as histórias de vida. Algumas fáceis, outras nem tanto. Os mesmos amigos, renovando risadas há 40 anos.

Ainda durmo com a mesma coberta que me cobria há 30 anos. Era novidade na época. Um substituto mais saudável aos cobertores que castigavam os alérgicos. Hoje ela está puída, já se pode ver através do tecido. A estampa esmaeceu. Parece que as folhas miúdas, que enfeitavam o marrom do fundo, caíram num inverno tardio. Toda noite a enrolo e coloco sob meu rosto. É inenarrável o prazer que isso me proporciona.

Numa estante moderna, peças antigas disputam espaço com modernos equipamentos. Um relógio que já marcava horários rígidos há quase 100 anos, agora tem máquina mais silenciosa. Os horários já não são tão rígidos. O relógio já não é tão preciso. Hoje ela é mais precioso que preciso. O rádio, que sempre ficou na cabeceira esquerda da cama da minha avó. Cama onde sentávamos e aprendíamos a bordar. Nunca aprendemos, mas gastamos intermináveis metros de fios coloridos. Eu amava aqueles novelos. Onde será que foram parar as miniaturas das peças de porcelana? Eu não me lembro de ter ouvido nada nesse rádio, mas lembro dele sempre ter estado lá. Um vidro de perfume. Cristal. Lindo. Vazio agora. Nem sei se um dia ele esteve realmente cheio. Uma sopeira, linda, florida com detalhes dourados. Não me lembro de ter tomado um prato sequer de sopa desta sopeira, mas a guardei como um gesto de carinho da madrinha tão querida. Um tesouro seu que tão carinhosamente passou às minhas mãos. Uma parte da sua história que, enfim, ligou-se à minha. O relógio com o cuco. O cuco não existe mais. Será que morreu? Fugiu? Hoje ele é silencioso e me observa. Talvez criticando meu tempo que passa. Meu tempo que passa sem sopa, sem música no rádio, sem cuco, sem cores nos novelos.

Quando eu nasci, meu pai me comprou uma boneca para a primogênita. Não era uma boneca simples, nem da Estrela a boneca era. Era uma boneca exótica. "Exótica", era um adjetivo que sempre me pareceu muito ousado para uma boneca. A boneca é vermelha, tem cabelos grisalhos. Ela sorri de olhos fechados e tem bochechas proeminentes. A boneca ainda existe. Eu ainda amo essa boneca. Hoje ela segura alguns livros da minha biblioteca. Por ser exótica, a deixo perto de Anais Nin. Elas se dão bem, acredito eu. A boneca continua sorrindo, nem rugas ela tem.

A casa da infância ainda é a mesma. Pouco mudou-se da disposição. A escada, de onde caí tantas vezes, ainda está no mesmo local. Ainda são doze degraus. Os muros ainda são altos. Eu cresci pouco, os muros continuam altos para minha estatura. O porão ainda existe. A sala ainda é gigante. A cozinha ainda é carinhosamente barulhenta e ainda cheira a café e rosquinhas. As xícaras ainda são de ágata. O piso do quarto da avó ainda é o mesmo. A avó já não dorme mais ali. O mesmo corredor interminável. As mesmas panelas, o mesmo mármore cor de rosa, um mesmo quartinho que mudou de função ao longo do tempo, a mesma tampa no quintal, o mesmo portão ligando as casas, as mesmas passagens secretas, os mesmos quadros, os mesmos porta retratos. As mesmas lembranças emolduradas pelas mesmas paredes.

A Dona Olívia ainda é a mesma. Uma delas é a mesma, a outra morreu há alguns anos. Ela já era idosa quando eu era criança. Pouco se vê ela varrendo as calçadas hoje em dia. Sempre tive medo dela. Nunca me pareceu uma vovozinha boazinha. Nem uma, nem outra. Ela tinha um presépio gigante. Todo ano, no Natal, íamos visita-lo. Era o único dia em que podíamos entrar na casa escura da feiticeira da rua.

O amor, da vida toda, ainda é o mesmo amor de toda vida. Renovado, renascido, reciclado diariamente. Mais experiente, mais tolerante, menos exigente consigo e com os outros. Mais charmoso, mais atrevido, mais leve quanto às expectativas que a vida não atendeu. Mais romântico, mais criativo, mais carinho e menos críticas. Mais tio e menos sobrinho. Mais pai que filho. Mais sensível, mais sonhador, mais nostálgico. Mais próximo. Mais terno e mais eterno.

As mesmas músicas, as mesmas histórias contadas nas mesmas poesias. Sonhos tão diferentes. Tão poucos e tão simples. O mesmo bairro que é tão longe e tão perto de tudo o que hoje eu preciso. Tudo cabe aqui. Hoje, eu aqui me encaixo. Já achei que não encaixava um dia. A mesma coberta que já é suficiente pro pouco frio que eu sinto. O tecido amolecido pelo tempo, encarrega-se do carinho noturno. Os poucos amigos são suficientes. Não preciso de muitos, não preciso de muito. Preciso da verdade que eles são. A mesma casa é muito mais confortável do que foi um dia. Os retratos são muito mais verdadeiros. As crianças são novas, mas as alegrias as mesmas. O café continua quente nas mesma xícaras coloridas. Ainda rimos na mesma cozinha. O amor continua eterno.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013


Do que são feitos os Laços de Família? Parte II
 
Do que, afinal, são feitos os tais "laços de família"? Sem a pretensão romântica de ser a dona da verdade, vou tentar registrar aqui a sensação dos ingredientes que hoje compõem meus laços de família.
 
Primeiramente é necessário registrar que os laços de família ficam evidentes entre as paredes de tijolinho aparente da casa da Maria. É lá que se sente o cheiro do amor que adoça os laços. É lá que os laços são alimentados, são cuidados, são comemorados.
 
Sempre há festa em torno da mesa mágica da cozinha mágica da Maria. Basta que se sentem duas pessoas que a festa, como mágica, se realiza. São sempre risos fáceis, piadas, lembranças, fotos históricas, cheiro de bolo de segunda feira. Existem sempre amigos em volta da mesa mágica da cozinha da Maria. Há sempre um barulho de água caindo na pia ao fundo. O som do portão que abre quando alguém chega. O falar de alguma televisão ligada em algum cômodo. Há sempre festa, bolo e barulho na cozinha da Maria.
 
Nem sempre a casa da Maria foi tão alegre. A felicidade era contida. Havia conflitos que se escondiam atrás da porta da área íntima da casa, apesar da área íntima da casa nunca ter tido uma delimitação clara para ninguém, os conflitos existiam, eram evidentes. No meio de alguma bagunça, de algum entulho, no fundo de alguma gaveta de tranqueiras, os conflitos sumiram. Incrível, eles não existem mais.
 
Na casa da Maria havia poucas crianças. Os natais foram ficando vazios de sentido. O papai noel não enganava mais ninguém. Ninguém comia os enfeites de chocolate da árvore. As poucas crianças já estavam crescidos...a casa passou a ficar silenciosa.
 
Como tudo na casa da Maria é dotado de certa dose de benção especial, de susto chegou Cecília. Fora de hora, não planejada, para nos ensinar que somos meros atores, mas que quem escreve a história é alguém que sabe muito mais que nós. Chegou na hora e do jeito que quis. Cecília faz barulho, sorri, engatinha, chama pra si todos os holofotes. Cecília trouxe para a casa da Maria, de novo, o cheiro de criança. Cheiro de criança é essencial como ingrediente para laços de família.
 
Acharam que era pouco. Logo atrás de Cecília, vieram os gêmeos: Arthur e Isadora. Não bastava ser mais uma criança, tinham que ser duas, não bastava serem gêmeos, tinham que ser um casal, não bastava esperarem quase até o final da gravidez, tinham que ser lindos. Agora são três. Três novos ingredientes para adoçar nossos já tão doces laços. Nós, embasbacados, ainda nos sentimos como crianças presenteadas pelo Papai Noel. Exibimos nossos presentes, cheiramos nossas novas bonecas e rimos feito bobos.
 
Como registrar de forma fiel o aroma de amor que se sente no ar na casa da Maria?
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


terça-feira, 23 de julho de 2013

Do que são feitos os laços de família?


Somos feitos da mesma carne. Nascemos dos mesmos imigrantes portugueses, sofridos e rústicos que aqui aportaram há tantos anos, que até parece outra vida. Feitos da mesma carne, juntos na mesma sala quase escura, mal iluminada pela chama triste de duas velas. Nosso olhares, vez por outra, se encontravam e se estranhavam. Quem são? De onde vieram? Para onde vão?

Uma avó, três filhas, 10 netos, alguns bisnetos. Sou incapaz de reconhecer os bisnetos. Percebo alguns traços sutis dos pais, mas não me esforço para saber quem são. Aparentemente, eles também não se interessam em saber quem sou eu. Desconfio que a semelhança com minha mãe me denuncia. Um mesmo tronco de família. Desconhecidos dentro de uma sala cheirando mal. Desconforto e um morto entre nós. Uma avó triste, tão triste. O rosto dela é a tradução da tristeza de quem sobrevive aos seus descendentes.

O morto foi um tio um dia. Tive poucos tios. Apenas dois. Um deles, amei e odiei. Foi quem me ensinou a perdoar. Desse, que hoje era o centro das atenções,  eu não tinha ódio, nem amor, nem lembranças tão pouco. Ele foi marceneiro. Fez armários, portas e o forro da casa dos meus pais e só. Foi só o que ele fez. Não consegui sofrer por ele, mas sofri pela tia, meio desorientada e abandonada na vida.

Quase no momento final, chorei na despedida do irmão. Tão velho, cego, perdido, à beira da morte há tantos anos. Chorando dolorosamente sobre o corpo do irmão, sem poder vê-lo. Vi meu pai chorando pelos amigos de uma infância tão distante. Muito mais distante do que a temida morte. Sinto que meu pai não quer morrer. Hoje o vi chorar. Chorar pelo amigo perdido ou pela sombra da morte?

O dia estava feio, como são todos os dias de enterro. Caía uma garoa fina e as pessoas se encolhiam. Encolhiam-se de frio e também para evitar-se mutuamente. Triste. Tudo era triste ali. A morte era triste, mas também era triste a vida.

Do que, afinal, são feitos os laços de família?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Nascem mães


Em 100 anos mudaram muito os nossos papéis. De donas de casa e submissas esposas, passamos a arrimo de família, mães solteiras, altas executivas, presidentes da república.

Mudaram nossa cabeça e nosso corpo. As antes tão infantis meninas de 12 anos, hoje já são mulheres cheias de curvas e desejos. As balzaquianas nunca foram tão cobiçadas. A juventude agora dura mais.

A maternidade, antes natural aos 18, hoje vai para o fim da fila das prioridades. Antes vem os estudos, a carreira, a casa própria, o carro do ano, a utopia da estabilidade. Tornamo-nos mães tardias.

Conquistamos o direito de sermos "mães loucas". Mães sufocadas entre os papéis de mãe, amante, dona de casa, alta executiva e amante. Cabeça em planilhas de excell, mãos de fada para bolos e quitutes, peitos fartos de leite, lingerie sensual. Onde se encontra a magia de desempenhar bem tantos papéis??

Só uma mulher seria capaz de tanto. Só nós nascemos programadas para a total abnegação em função do outro.

Em pleno sécuo XXI, sufocada entre papéis impostos, planilhas  e Cinquenta Tons de Cinza, ainda cultivamos o desejo e a alegria da maternidade, com todos os ônus que ela traz.


Nasce mais uma mãe...

Eu a vi nascer. A lembrança que guardo do dia do seu nascimento é uma cena na calçada da casa materna. Uma perua escolar vinha buscar a outra irmã. Uma perua azul. A mãe, sempre presente, estava ausente naquele dia. Tinha ido buscar mais uma menina para nos.

Nao lembro o que senti. Não sei se tinha ideia da dimensão que aquilo tinha. Ela veio muito pequenininha, não lembro se enrolada em xale ou manta. Deste tempo sobrou muito pouca lembrança. Nem todas boas. Ainda bem pequena, ficou muito doente, dizem que quase morreu. Sempre ouço contarem histórias sobre lábios e unhas roxas e alguns dias em uma UTI. Sempre achei isso bem sério. Lembro de uma vela acesa aos pés de um santo ao lado da porta da entrada e lembro do choro da minha mãe.

Não sei se por esse fato, não sei se pelo fato de ter tido ombro de irmãs mais velhas, mas Carina sempre foi forte. Forte e independente. De tão independente, muitas vezes se fez distante.

Dela agora eles vão chegar. Gêmeos. Os únicos gêmeos na família. Devem vir Arthur e Isadora. Já tão especiais desde antes de chegarem. Tão esperados, de certa forma, até temidos.

Carina é uma mãe linda. Ela iluminou. A barriga giganté é incômoda, os pés incham, as costas dóem, mas Carina é só sorrisos, é só felicidade.

Eu observo, olhos enchem de lágrimas. Transborda emoção.





domingo, 24 de março de 2013

Pedido ao tempo

Tempo,
por favor devolva-me minhas tardes livres de angústias e aflições,
devolva-me a vida sem perdas nem partidas,
devolva-me aos meus 20 anos.

Tempo,
devolva meus fartos cachos despreocupados,
minhas vespertinas aulas de violão,
devolva-me meus sonhos leves e realizáveis.

Tempo,
preciso urgente das minhas esperanças ao Sol,
da fantasia de amores eternos,
de cabanas na praia,
da sombra da cerejeira.

Tempo,
preciso da chuva na cabeça ao final da tarde,
preciso do cheiro do café no ninho materno
invadindo minha alma e me dizendo que vai dar tudo certo enfim.

Tempo,
preciso acreditar novamente nos finais felizes,
devolva-me minhas ilusões críveis,
devolva-me aos meus 8 anos, aos meus 12 anos, aos meus 15 anos...
o brilho dos meus olhos

Tempo,
devolva-me tudo o que eu tinha a reazliar,
tudo o que era tão possível...

Tempo,
preciso de tempo para respirar.