terça-feira, 12 de junho de 2012
recomeços...parte 2
Mas fulana, isso não deveria ser um post sobre "recomeços"?
Que raio faz um orelhão ilustrando o texto?
Tá, eu explico....
Ulisses, de James Joyce, é um livro que eu namoro de longe. Algo como aquele restaurante ultra fino que você não entra não necessariamente por falta de dinheiro, mas talvez por achar que não esteja pronto para aquele ambiente. Mais ou menos isso. Tenho Ulisses a uma distância segura.
Há algumas semanas li que a Companhia das Letras estava relançando Ulisses numa edição popular. Óbvio, popular no preço, não na obra. A obra continua sendo..."a obra". Em comemoração ao lançamento, um mini curso de 2 dias com Caetano Galindo, tradutor dessa última edição. Planejei colocar meus óculos vermelhos, fazer pose de intelectual (que aliás faço muito bem) e me embrenhar no meio da platéia. Talvez ninguém notasse a minha presença ali. Praticamente uma intrusa. Fui.
O mini curso começou ontem. Inacreditavelmente Caetano fala minha língua. É simples e muito didático ao tentar passar para a pequena platéia um cenário geral da obra de 1100 páginas. Estou mais apaixonada que nunca e agora talvez tenha coragem de um olhar mais demorado...uma assédio mais próximo. Talvez, eu digo apenas talvez, eu encare Ulisses desta vez.
Bom, mas afinal o que tem a ver o tal orelhão pintado da foto com Ulisses e com recomeços?
Ontem, foi um dia surreal, uma correria do cão a tarde. Cheguei em casa em cima da hora e previa ir de ônibus/metrô para a Paulista. Se eu tivesse leitores e eles fossem leitores desavisados (sempre quis escrever isso "leitores desavisados") eles não entenderiam porque achar estranho ir de ônibus/metrô para a Paulista. Mas se eles me conhecessem, entenderiam.
Cheguei correndo, esbaforida de uma tarde incrível, de jaqueta preta e cachecol rosa. Larguei o carro e lá fui eu, de botas cano alto, de ônibus para a Paulista. Sim, a Paulista.
A Paulista sempre foi um cenário importante para mim. Algumas pessoas gostam do Itaim, outras da Liberdade, algumas da Vila Mariana. Eu mesma tenho quedinha grande pela Vila Madalena. Mas, cá entre nós, é na Paulista que as coisas acontecem.
E lá estava eu. Toda "pimpona" como diria uma nova amiga já muito querida. Caminhando nas calçadas da Paulista, iluminada por aquela incrível luz amarela, com passos seguros e um sorriso meio idiota no rosto. Eu quis registrar isso hoje, pois tenho certeza que daqui a alguns dias isso vai parecer uma bobagem sem fim. Mas ontem, isso teve uma importância ímpar nesse meu recomeço.
Ontem, eu era uma adolescente tardia. De botas de cano alto (eu nunca tinha tido botas de cano alto), andando sozinha (de ônibus) pela Paulista. Me aventurando num mundo que sempre amei (a literatura) mas que nunca foi meu. A sensação do dia de ontem é algo que quero guardar pra sempre.
Por que o orelhão afinal?
Há alguns dias conversando com um amigo, que mora há alguns anos nos EUA, acabamos ficando na dúvida quanto a configuração atual dos orelhões de São Paulo. Ele, ausente da cidade há muitos anos, lembra-se de um orelhão amarelo "marca texto". Eu lembrava de algo azul. Ontem, na Paulista, me deparei com esse. Obvio, talvez seja uma versão moderninha que fizeram para a Paulista (não acredito que os orelhões de Barueri tenham essa configuração). Mas enfim, mostrou como eu vivi fora do mundo nos últimos anos.
O orelhão foi a minha porta de entrada para esse mundo onde as coisas acontecem...
segunda-feira, 11 de junho de 2012
de valter hugo mae (assim mesmo, em minúscula)
O que a obra provoca.
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De tempos em tempos cai no colo da gente uma obra, um autor, um personagem....há pouco tempo me caiu no colo tudo isso junto.
Ele surgiu, a princípio, como uma opção desconhecida no Nosso Clube de Leitura. Talvez pela concorrência fraca dos demais títulos, acabou sendo o escolhido. O livro, àquela altura, era "a máquina de fazer espanhóis" de um autor, até então, desconhecido para nós.
Mas que escritorzinho mais atrevido. Não respeita as regras de pontuação, vejam só. Cadê as maiúsculas do texto, mas que absurdo.
Como tudo que corre o risco de transgredir, a obra transcendeu. Enfeitiçou. Essa é a palavra. Fiquei enfeitiçada.
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Numa sentada, como dizem, lá se foi "a máquina de fazer espanhóis". Tão linda, tão real, tão melancólica e suave ao mesmo tempo. Teve o poder de me fazer gargalhar em risos e choro.
Apos a leitura, a surpresa maior. O autor tinha a minha idade. Como assim? Uma pessoa de 40 anos escrevendo as dúvidas, tristezas e saudades de um velho de 80??? Como assim???
Um tempo depois, num encontro na Livraria da Vila, ele explicou que tem nele todas as perguntas de um homem de 80 anos. Só ainda não tem a necessidade urgente de respondê-las.
Após o encontro do grupo de leitura, ficou a angustiante sensação de quero mais. Queríamos mais. Entre trancos e barrancos de agendas, conseguimos encontrar um tempo nas manhãs dos nossos sábados e lá fomos nos, sentindo-nos meio extra terrestres, lançadas aos nossos "Saraus valter hugo mae". A obra agora, que tornar-se-ia nossa Bíblia, seria "O filho de Mil Homens".
Que delícia de encontros. Com valter. Com a obra. Com as outras. Com a gente mesma!
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Abaixo alguns dos trechos dos tantos que nos arrancaram suspiros durante a leitura.
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"Pra dentro do homem o homem caía"
"Queria dizer meu filho, como se a partir da pronúncia de tais palavras pudesse criar alguém."
"e dizia que os amores lhe tinham faltado, mas que os amores não destruíam o futuro."
"Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende."
"A natureza, quieta a ser só inteligente e quieta, não disse nada, nem o Crisóstomo esperaria ouvir uma voz. A esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta."
"Amar era feito para ser uma demasia e uma maravilha"
"Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz."
"O homem que chegou aos quarente anos sorriu, e aquele sorriso já não era o mesmo do dia anterior. Já não era como nenhum outro do passado. Era o dobro de um sorriso."
"Mais as árvores, que ficavam quietas sem fazerem nada, só o barulho no inverno e a fruta no verão. Sem medo. As árvores mostravam apenas a espantosa paciência."
"Não era mulher de reclamar grandes atenções, e por isso não retinha nada de especial. Era como aproveitar o amor possível. O amor dos infelizes."
"Sentia que, se o filho vingasse, a sua vida valera a pena. Curava-se da tristeza e prosseguia no insondável que os filhos são. Os filhos, dizia, levam dentro famílias inteiras."
"A vida fazia-se à revelia da felicidade."
"A Isaura caminhou a sentir-se assim, perplexa e vazia, como se não fosse ninguém, apenas encantada percepção do que há no mundo."
"Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía."
"O passado não corre. O doutor pensava o contrário. Pensava que o passado tinha pernas longas e corria, sim, e muito, como um obstinado a marcar a sua presença, a sua herança. O passado é uma herança de que não se pode abdicar."
"Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia:não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesteral. e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro."
"Ser o que se pode é a felicidade."
"Vinha do hospital. Talvez pensasse que a vida era curta. Demasiado breve para tanto procurar. Melhor seria se aceitasse o que havia como bastante. A felicidade podia definir-se assim. O bastante."
"Ela perguntou: o boneco tem nome. Ele respondeu: nao. Ela disse: que sorte, assim não precisa de ser ninguém. Quem não é ninguém não lhe falta nada. Nem lhe falta o amor, nem espera por nada."
"Pode não ser mentiras, mas apenas uma maneira diferente de acreditar."
"As pessoas eram assim mesmo, feitas de imprudências. Olhe, dizia a Rosinha, quem sabe se a imprudência é a felicidade."
"Achava que tinha um filho que era um certo deficiente do amor. Padecia de uma loucura dos sentimentos. Dizia por imprudência o que não tinha de dizer, não devia sequer acreditar naquilo."
"Se não esperarmos nada, dizia ele, tudo quanto existe é já abundância."
"Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és."
"Assim se ia calando, encostando sempre as dores aos móveis, frequentemente permanecendo apenas deitado, esperando."
"Mas quando se soube, estava lá, metida numa caixa, arrumada de flores e perfumes para fazer de conta que a morte era uma coisa bonita."
"Elevou as mãos num abraço e não contou mais pelos dedos se seria demasiado velha para aquela alegria esquisita, para aquele compromisso grande, para a abundância imposta por amar-se uma filha. Era necessária uma abundância de tudo, matéria, espírito e idade, para regressar a tempo de educar alguém. Não quis contar, nem pelos dedos nem por alto, o quanto arriscava com aquele sentimento, o quanto se vulnerabilizava, talvez tola, por uma esprança nova de voltar a ser mãe."
"Ela nunca fora amiga de ninguém. Vivera encurralada entre os pais, o gato, as hortaliças e o amor dos infelizes."
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Com Amor...da Idade da Razão
Sonhos de infância traídos? Baús de tesouros secretos enterrados na terra do quintal. Sempre mais seguros. Sonhos soltos por aí podem, tragicamente, tornarem-se frustrações, fardos pesados demais para serem carregados em maletas de notebooks compactos.
Hoje sou uma adulta chata que usa saltos, toma café, usa guarda chupa preto e adora brincar de quem consegue ficar quieto mais tempo. Se sou feliz? Sou. Se poderia ser mais feliz? Talvez.
Os sonhos de infância ficariam mais seguros em caixas forte. Protegidos da responsabilidade. Protegidos de um futuro cinza e com música ambiente.
Uma tábua de mandamentos que deveríamos seguir à risca:
- Nunca ter guarda chuva preto.
- Não ter duas canecas iguais.
- Escrever sempre com lápis de cor.
- Usar sempre batom vermelho com sabor de morango.
- Adotar meias Dancing Days para todas as ocasiões.
- Dançar em frente ao espelho, pelo menos, três vezes ao dia.
- Escova de cabelo é microfone; blusa cacharrel é cabelão.
- Nunca desistir de encontrar o príncipe encantado.
- Ser feliz para sempre, sempre.
- Morar num castelo encantado.
- Usar capa de chuva colorida, mesmo em dias de sol.
- Não deixar de testar o amor eterno nas pétalas das flores.
- Pisar em todas as poças dágua que cruzarem meu caminho.
- Levar todos os sonhos na cestinha da bicicleta.
- Nunca duvidar do poder da bicicleta me levar a outros mundos.
- Não esquecer o mundo que se vê do topo das árvores.
E...o mais importante...não esquecer que, estar perdido, pode ser uma grande aventura.
A partida
Alguns filmes, em alguns momentos de vida, falam com a gente. Falam, gritam ou sussurram...transmitem mensagens tão simples. Muitas vezes mensagens secretas.
Esse é um desses filmes!
terça-feira, 29 de maio de 2012
Complexo de Pornoy
"Era minha mãe que era capaz de fazer qualquer coisa; ela própria tinha de reconhecer que talvez fosse mesmo boa demais. E como um menino com a minha inteligência, com meus poderes de observação, poderia duvidar dessa avaliação? Ela sabia fazer, por exemplo, gelatina com fatias de pêssego suspensas dentro, pêssegos que simplesmente flutuavam, desafiando a lei da gravidade." (Philip Roth - Complexo de Portnoy)
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"Eu, por mim, jamais teria chegado perto daquela piscina, nem que me pagassem - é um viveiro de poliomielite e meningite, para não falar em doenças de pele, do couro cabeludo e do cu - ; dizem até que um garoto de Weequahic uma vez pisou no lava-pés entre o vestiário e a piscina e saio do outro lado sem as unhas dos pés. E no entanto é lá que a gente encontra garotas que trepam. Tinha que ser lá, não é? É justo lá que a gente acha o tipo de shikse que Topa Tudo! Assim, é preciso correr o risco de pegar poliomielite na piscina, gangrena no lava-pés, ptomaína no cachorro-quente e elefantíase no sabonete e nas toalhas para talvez conseguir comer alguém" (Phillip Roth - Complexo de POrtnoy)
Paraíso das Cachoeiras
Travada. Não consigo vomitar uma linha se quer a respeito desse momento tão importante da minha vida. Sentimentos e pensamentos tantos e tão variados que é bem possível que esteja tudo entalado na garganta a ponto de me sufocar.
Vivi a vida com os pés fincados no chão a espera de um futuro prometido e planejado que, simplesmente, não aconteceu. Em algum ponto do caminho, em alguma encruzilhada traiçoeira tomei uma decisão errada e me perdi do meu futuro glamouroso.
Hoje, caminhando num parque que não foi feito pra mim, finjo ser quem eu não sou. Muito provavelmente, nunca serei. Deixo que a música dê o rítimo da minha caminhada...bom se pudesse que uma música desse o tom da minha vida e que sobrassem, pra mim, menos decisões a serem tomadas.
"Não há certezas, só oportunidades" ouvi há poucos dias num dos meus filmes prediletos - V de Vingança. Ideais escondidos atrás de uma máscara. Eu sou uma máscara. As pessoas me acham grande demais, eu me acho pequena demais.
Uma vida toda traçando planos a longo prazo, mas vivendo de prazos curtos, de emergências, de situações sem saída. Tão cansada. Tão desanimada. Pode ser apenas um dia ruim, mas eu que sempre fui tão otimista, sempre com mensagens tão otimistas a pessoas tão menos otimistas que eu, hoje desanimo.
Quero me livrar de pesos, de expectativas frustradas, de aventuras instântaneas. Quero um milhão de balões que me leve para viver no Paraíso das Cachoeiras.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Uma despedida feliz!
É sempre mais fácil narrar as histórias depois que elas aconteceram. Mais fácil entender a dinâmica dos fatos, os motivos dos personagens, algumas ações desencontradas passam a fazer sentido após a revelação do grande mistério do final.
Hoje, vivo uma despedida. Quero escrever o texto enquanto a despedida acontece. É uma despedida de um dia inteiro. Uma despedida que começou a cerca de dois meses.
Aos poucos vou me despedindo da mesa azul que suportou meu notebook e tantos dos meus devaneios literários. Despeço-se dos três grandes armários de aço e suas seis imponentes portas. Sempre fechadas, sempre trancadas e sempre me observando. O pequeno arquivo de aço encostadinho tímido no canto da sala. Sempre quieto, quase vazio e também trancado.
Deixo hoje aqui nessa sala ampla de carpete cinza muitas boas lembranças. Aprendizado importante na minha vida. Tolerância, compreensão, paciência e dedicação.
Despeço-me silenciosamente da janela que me fez companhia durante esses anos. Uma janela de paisagem entristecida. Muitas casas, crianças, cachorros e vendedores ambulantes. Sentirei falta de cada janela.
Foi uma época difícil da vida fácil que vive. A mais difícil de todas. Muitas vezes, as paredes brancas da sala solitária, acolheram algumas lágrimas silenciosas minhas e souberam guardar segredo de alguns momentos de desesperança. Tudo fica aqui, guardado. E eu vou....embora.
Parto, agora livre de medos, para o futuro. Que não sei exatamente qual será. Mas sei que será.
Como li há poucos dias num dos meus favoritos filmes..."não há certezas, só oportunidades".
Hoje, vivo uma despedida. Quero escrever o texto enquanto a despedida acontece. É uma despedida de um dia inteiro. Uma despedida que começou a cerca de dois meses.
Aos poucos vou me despedindo da mesa azul que suportou meu notebook e tantos dos meus devaneios literários. Despeço-se dos três grandes armários de aço e suas seis imponentes portas. Sempre fechadas, sempre trancadas e sempre me observando. O pequeno arquivo de aço encostadinho tímido no canto da sala. Sempre quieto, quase vazio e também trancado.
Deixo hoje aqui nessa sala ampla de carpete cinza muitas boas lembranças. Aprendizado importante na minha vida. Tolerância, compreensão, paciência e dedicação.
Despeço-me silenciosamente da janela que me fez companhia durante esses anos. Uma janela de paisagem entristecida. Muitas casas, crianças, cachorros e vendedores ambulantes. Sentirei falta de cada janela.
Foi uma época difícil da vida fácil que vive. A mais difícil de todas. Muitas vezes, as paredes brancas da sala solitária, acolheram algumas lágrimas silenciosas minhas e souberam guardar segredo de alguns momentos de desesperança. Tudo fica aqui, guardado. E eu vou....embora.
Parto, agora livre de medos, para o futuro. Que não sei exatamente qual será. Mas sei que será.
Como li há poucos dias num dos meus favoritos filmes..."não há certezas, só oportunidades".
sexta-feira, 11 de maio de 2012
"No fim escolhi os nomes que eu continuava gostando depois de repetir cem vezes. É um teste infalível. Você começa a repetir uma coisa cem vezes e se continuar gostando, é porque é legal. Isso não serve só pros nomes, mas para qualquer coisa, para a comida ou para as pessoas."
(Festa no Covil - Juan Pablo Villalobos)
terça-feira, 8 de maio de 2012
"- E não te faz falta nada? - perguntei.
- Nada que seja impossível. - Quanto a ti, estás ai molhando a cabeça, acrescentou, acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão sobre os cabelos -, inveja as folhas e a erva, porque são molhadas pela chuva, gostaria de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no mundo.
- E não lamentas nada do que passou? - continuei a perguntar, percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.
Ficou pensativo e tornou-se a calar-se. Vi que procurava responder com toda franqueza.
- Não! - respondeu ele, lacônico."
- Nada que seja impossível. - Quanto a ti, estás ai molhando a cabeça, acrescentou, acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão sobre os cabelos -, inveja as folhas e a erva, porque são molhadas pela chuva, gostaria de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no mundo.
- E não lamentas nada do que passou? - continuei a perguntar, percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.
Ficou pensativo e tornou-se a calar-se. Vi que procurava responder com toda franqueza.
- Não! - respondeu ele, lacônico."
(Felicidade Conjugal - Tostoi)
domingo, 15 de abril de 2012
"A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura alegria. E quanto também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a ses olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos. Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probabilidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem nem para o mal...e esta é a verdadeira velhice." (Sandor Marai - As brasas)segunda-feira, 9 de abril de 2012
"a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros."(valter hugo mãe em "remorso de baltazar serapião")
quarta-feira, 4 de abril de 2012
A morte de Ivan Ilitch...e de todos nós!
"O exemplo do silogismo que aprendera no compêncio de lógica de Kiesewetter - Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal - sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de tosod os demais. Ele fora o pequeno Vania, com sua mamãe e seu papai, com Mitia e Vológida, com os brinquedos, o cocheiro, a ama depois com Katienka e com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vania tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe como Vania? Era para Caio que a seda do vestida da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vania? Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma audiência? Caio é de fato mortal e, portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vania, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e minhas idéias, o caso é inteiramente outro. É impossível que eu tenha de morrer. Seria demasiado horrível."
quinta-feira, 29 de março de 2012

...
"Há tanto tempo que eu te amo"
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Numa noite insone, recomeços me assombram. Tenho o mau traço de não terminar o que começo. Coleciono, durante a história da minha vida, muitos inícios sem finais. Mas agora, recomeços me assombram. Gritam na minha consciência. Não permitem que eu fique indiferente. Me chamam, gritam por mim...Socorro. Estamos aqui te esperando.
Tenho mais medos que coragem. Tenho mais dúvidas que certezas. Acho que, enfim, aprendi que isso é a vida real, um punhadinho de dúvidas nos cutucando o tempo todo, igual etiqueta de blusa.
sábado, 24 de março de 2012
Uma lágrima no diário!
Em 28 de março de 1941, Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e entrou no rio Ouse. O marido, Leonard Woolf, era obsessivamente meticuloso, e manteve na vida adulta um diário no qual registrava todos os dias as refeições e a quilometragem do carro. Aparentemente, não houve nenhuma diferença no dia em que sua mulher se suicidou: ele registrou a quilometragem do carro. Mas, diz sua biógrafa Victoria Glendinning, a página dessa data está borrada, com 'uma mancha amarela pardacenta que foi esfregada ou enxugada. Podia ser chá, café ou lágrimas. É o único borrão em todos os anos de um diário impecável.' (Como funciona a ficção - James Wood)quarta-feira, 21 de março de 2012
Buenos Aires na Era do Amor Virtual
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Às vezes a gente pega um filme. Às vezes um filme pega a gente. Meus melhores momentos com eles são sempre nas minhas madrugadas solitárias.
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Na minha família sou referência em matéria de filme. Basta dizer que gostei, para que todos coloquem na lista dos filmes que NUNCA IRÃO VER. Me divirto com isso e acirro a cada dia esse meu gosto considerado "Excêntrico" pelo meu grupo.
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Às vezes, muitas vezes, a gente se sente perdido nos caminhos. Encontra becos sem saída, se sente perseguido, perde o casaco, conta com a solidariedade de estranhos, toma chuva e come restos. Às vezes a gente tem que correr, fugir, de tudo e de si mesmo a procura de "Mágica".
Às vezes, muitas vezes, a gente se sente perdido nos caminhos. Encontra becos sem saída, se sente perseguido, perde o casaco, conta com a solidariedade de estranhos, toma chuva e come restos. Às vezes a gente tem que correr, fugir, de tudo e de si mesmo a procura de "Mágica".
Um dia, depois de tanto correr, a gente descobre que a mágica, aquela em qual a gente acreditava, na verdade não existe...mas, de qualquer forma, guarda a varinha mágica e segue caminhando em direção à Torre.
segunda-feira, 19 de março de 2012

UM DIA
(DAVID NICHOLLS)
Uma data específica na vida de um casal de amigos...por vinte anos consecutivos.
Amores, família, tragédias pessoais, encontros e desencontros.
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LIBERDADE
(JONATHAN FRANZEN)
Um casal de amigos, um melhor amigo. Filhos, amantes.
Amores, família, tragédias pessoais, encontros e desencontros.
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A SOLIDÃO DOS NÚMEROS PRIMOS
(PAOLO GIORDANO)
Um casal de amigos.
Amores, tragédias pessoas marcando vidas. Encontros e desencontros.
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Os últimos 15 dias foram produtivos em matéria de leitura e de tragédias pessoais.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Pé pra cima
tinha um bueiro no meio do (meu) caminho, no meio do (meu) caminho tinha um bueiro. um bueirinho muito do safadinho, causador de uma imprevisível depressão no asfalto que, agindo em conjunto com meu chinelão, meu causou um baita acidente.
mas como dizem os mais otimistas, entre os quais eu me enquadro - "há males que vêm para o bem" - além de ter beijado o asfalto Carioca, que eu tanto almejava pisar durante meus suados 40 aninhos, ainda fui gentilmente aparada por um bêbado dançarino; assistida de camarote por uma platéia que há alguns segundos ouvia animada Tom e Vinícius numa calçada salpicada de pedrinhas pretas e brancas; e ainda, de quebra, ganhei um tour surpresa por um PS do Rio. quer mais emoção que isso? (piadinhas idiotas à parte, fui muito mais bem atendida do que tenho sido em SP em PSs da mesma rede, inclusive...só para constar).

mas ganhei carinho, fui mimada e vi o Rio de dentro da janela do Taxi do Carlinhhos. que me colocou no "colo" e me mostrou o "seu Rio"...suas praças com parquinhos, suas ladeiras de pedrinhas, seu Cristo, sua lagoa, sua Urca e a mureta da praia, seu Jocquey e sua Catedral, seu sambódromo, os arcos da sua Lapa.
de volta a SP, pé pra cima e 2 semanas em casa. pensando na vida. nunca na minha vida tinha tirado uma licença tão extensa. (nem mesmo no nascimento de Maria, conto essa história num outro post). fato é que gostei de estar em casa. gostei de ser mãe e dona de casa em período integral e isso me fez pensar em quantas vezes duvidei que pudesse gostar desse papel. o tempo passa e a vida segue ensinando...sempre e pra sempre.
gostei de acordar sem pressa e aproveitar mais um minutos de preguiça na cama vazia da manhã solitária. gostei de tomar meu café na minha varanda, tomar meu suco de laranja e comer minha torrada com geléia de morango...sentindo o perfume das minhas árvores. gostei de andar pela casa procurando o que fazer, bibelôs para arrumar, fotos para trocar nos porta-retratos, receber as correspondências do zelador, ouvir os barulhos diurnos dos apartamentos vizinhos, ver Maria chegando da escola de rosto vermelho de calor e ir largando a mochila e os tênis em qualquer lugar (eu fazia isso há tão poucos anos), gostei de cuidar de mim em tratamentos de beleza demorados e secretos, gostei de ler com tranquilidade sem barulhos, horários ou luz controlada, gostei de ir e vir pelo corredor e rever um milhão de vezes as mesmas fotos no meu mural, gostei dos bate papos com a Socorro e de saber um pouco mais da sua vida , gostei de poder tomar banho de Sol no meio da manhã sem culpa, gostei de não precisar sofrer com os horários mais concorridos da manicure, gostei de estar sozinha e de ter tempo para os meus próprios planos, gostei de planejar cardápios diários, voltar a fazer gelatina e receber meu amor no final do dia, gostei de respirar devagar, tomar banho devagar, ler devagar, poder perder tempo com péssimos filmes japoneses e franceses, comer devagar, pensar devagar, viver devagarinho.
terça-feira, 13 de março de 2012
Rio de Janeiro - Minha primeira vez
Montanhas cinematográficas que me emocionam
e podem ser cenário para qualquer capítulo de uma vida....em qualquer vida.
É como se, do alto da montanha mais alta,
um Cristo de pedra gigante, de braços abertos dissesse ao mundo:
"É tudo meu, meu pai que fez".
segunda-feira, 12 de março de 2012
"De fato, não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma idéia própria, ser terminantemente "como todo mundo". Ter riqueza, mas não do tipo Rothschild; a família é honesta, mas nunca se distinguiu por nada; aparência boa, mas muito pouco expressiva; boa instrução, mas não sabe em que empregá-la; tem inteligência, mas sem ideias próprias; tem coração, mas sem magnanimidade et. etc. em todos os sentidos. No mundo existe uma infinidade extraordinária de pessoas assim e até bem mais do que parece; como todas as pessoas, elas se dividem em duas categorias principais: umas limitadas, outras "bem mais inteligentes". As primeiras são mais felizes. Para um homem "comum" limitado, por exemplo, não há nada mais fácil do que se imaginar um homem incomum e original e deliciar-se com isso sem quaisquer vacilações. Bastaria a algumas das nossas senhorinhas cortas os cabelos, pôr óculos azuis e chamar-se de niilistas para se convencerem imediatamente de que, de óculos, elas passariam imediatamente a ter suas próprias "convicções". A um bastaria apenas sentir no coração um pinguinho de algo derivado de alguma sensação humana e boa para logo se convencer de que ninguém sente como ele, de que ele é avançado em seu desenvolvimento. A outro bastaria adotar em palavra algum pensamento ou ler uma paginazinha de alguma coisa sem princípio nem fim para acreditar imediatamente que esses "são seus próprios pensamentos" e brotaram do seu próprio cérebro. O descaramento da ingenuidade, se é que se pode falar assim, chega ao surpreendente nesses casos; tudo isso é inverossímil, mas se encontra a cada instante. ..............
O problema é que o homem "comum" inteligente, ainda que de passagem (e talvez até durante toda a sua vida) tenha se imaginadao um homem genial e originalíssimo, mesmo assim conserva em seu coração o vermezinho da dúvida, que chega a tal ponto que o homem inteligente às vezes termina em absoluto desespero; se fica resignado, já o faz totalmente envenenado pela vaidade interiorizada."
(O Idiota - Dostoievski)
quinta-feira, 8 de março de 2012
16 anos depois!
um amigo querido perguntou..."Mas foram felizes para sempre?"
A pergunta me inspirou um novo texto...
A pergunta me inspirou um novo texto...
e acho que nesse, a pergunta ficará respondida.
............................
ele aprendeu a não por manteiga no meu pão,
eu aprendi a respeitar a mania que ele tem de por queijo ralado em tudo.
ele convive bem com minha neura quanto a portas abertas,
eu aprendi que ele não dorme com blusas de decote "v".
ele respeita as dificuldades e limitações dos meus pais,
eu aprendi a amar a mãe dele.
ele ainda ri do meu pânico por bichos de pena,
eu ainda acho que ele é um leão.
ele respeita a minha preferência pelo escuro,
eu acendo a luz quando quero surpreendê-lo.
ele censura meus decotes,
eu aprendi a me divertir com seus olhares furtivos nos decotes alheios.
ele se acostumou com os carinhos do jeito que eu gosto,
eu me acostumei ao jeito dele de gostar de todos os carinhos.
ele aprendeu a amar as minhas irmãs,
eu amei o irmão que ele me deu de presente.
ele passou a admirar minhas unhas pintadas de vermelho,
eu sou apaixonada pelos seus primeiros cabelos brancos.
ele aprendeu que meu sorvete é sempre de chocolate,
eu que ele gosta de dirigir em silêncio.
ele entende minha paixão por Tom e Vinícius,
eu apoio suas viagens interplanetárias.
ele passou a andar mais devagar para me esperar,
eu aprendi a sempre segurar sua mão para não me perder.
ele aprendeu a respeitar minha solidão compulsória,
eu aprendi a ouvir seu rock and roll.
ele me ensinou o que é amor eterno,
eu aprendi direitinho.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Das coisas que me ganham!
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Me ganha a pessoa que senta do meu lado numa festa ou num samba (samba, do bom, antigo, me ganha) e, simplesmente, continua uma conversa. Aquele tipo de conversa de conhecidos de anos. Aquela que engata de algum caso (esquecido) de um passado que não lembramos de ter vivido.
A intimidade me ganha. Se puder falar alguns palavrões e fazer um pouco de piada a respeito de si mesmo, ainda melhor.
Me ganha quem limpa a tampa da latinha da cerveja pra mim. Já me ganhou quem sabe que só tomo cerveja na latinha. E que ela nunca pode ser Itaipava.
Me ganha quem canta o mesmo samba que eu. Me ganha também quem nem gosta de samba mas fica silencioso ao meu lado, curtindo meu prazer.
Me ganha quem sabe que minha pizza não pode ter catupiry, que meu temaki não pode ter cream cheese e que minha roupa nunca é amarela.
Me ganha gente que ouve. Que sabe esperar até o ponto final da frase. Gente que me dá feedback com movimentos leves de cabeça ou de olhar. Mas, se não concordar comigo, melhor. Me ganha quem sabe somar sua opinião à minha. Me ganha quem me deixa somar minha opinião à sua.
Me ganha quem me comenta suas leituras e me indica seus livros.
Me ganha quem me cumprimenta com abraço. Quem sabe escrever a grafia correta do meu tão complicado nome. Me ganha quem me chama de "querida", de "amiga" ou de "cuzona". Me ganha quem diz ter saudade de mim e nem precisa ser sincero. Me ganha quem me fala olhando nos olhos.
Me ganha quem me conta problemas cotidianos e crises conjugais. Me ganha quem diz que, mesmo que as coisas não estejam bem, elas irão melhorar.
Me ganha quem sofre e precisa da minha ajuda. Me ganha, pra sempre, quem pede meu socorro. Me ganha quem sabe fazer com que me sinta viva por saber fazer com que me sinta útil, quase imprescindível. Me ganha quem me pede ombro. Claro, também me ganha também quem me dá ombro. Me ganha quem sabe me dar broncas.
Me ganha quem tira o sapato na minha casa e se senta no chão. Quem sabe a história do meu relógio cuco, da minha sopeira e da minha poltrona de leitura.
Me ganha quem se dá o direito de se mostrar com defeitos para mim. Me ganha quem conta suas própria mazelas, seus planos frustrados, seus sonhos inatingíveis, seus amores não correspondidos, suas invejas, algum podre. Me ganha quem é tão imperfeito quanto eu.
Publicado originalmente em 10/10.
sexta-feira, 2 de março de 2012
2 de março de 1996
há 16 anos eu era uma adolescente tardia de 24 anos. tinha todas as certezas do mundo. a vida traçada numa planilha de excell com pequena margem percentual para variantes de insucesso.naquela manhã de março, acordamos cedo, vestimos roupas despojadas e nos reunimos em frente a um juíz de paz num cartório do bairro. numa sala quente, com um buquet de flores de plástico e achando tudo muito engraçado, colocamos nossas assinaturas inseguras num contrato e partimos para nos preparar para a grande festa das nossas vidas.
enfurnada num salão de beleza junto com outras noivas neuróticas eu seguia o script. uma das noivas assistia apaixonada a um programa de vídeo clips onde o noivo, DJ, dedicaria a elas músicas românticas. outra, mais nova e de cabelos cuidadosamente cacheados, chorava decepcionada com o buquet. eu, me enchia de deliciosos pães de queijo e suco de laranja.
o vestido era uma versão pioneira de reciclagem. usado pela irmã três meses antes, tinha sido virado ao avesso, do lado onde o tecido era mais fosco, mais discreto. nessa superfície de segunda mão, foram pregadas quatro mil pérolas. tardes e tardes de um ritual familiar mágico regado a café e muita emoção, eu e minha mãe nas últimas confidência pré matrimoniais. metros e metros de linha cor de pérola. rendas cortadas em charmosos medalhões iriam decorar toda a barra que depois seria pisada pelos mais de 300 convidados.
uma macha vermelha de ousadia. um buquet de rosas vermelhas, compacto, seguro. lindo. um detalhe surpreendente num roteiro de vida tão previsível.
conduzida pelos braços carinhos de um pai com olhos emocionados, ao abrir do grande portal, um corredor interminável margeado de muitos rostos conhecidos e carinhosos. em passos seguros, como quem caminha para o futuro, desenhamos nossos passos no grande tapete vermelho e entreguei minha testa ao beijo do homem que seria, para sempre, o homem da minha vida.
quinta-feira, 1 de março de 2012
A máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mae
"a máquina de fazer espanhóis"
Valter Hugo Mae
num primeiro namoro a página assusta. não há parágrafos, nem a letra maiúscula que anuncia o início da sentença. não há dois pontos, travessão na outra linha.
ENCANTADOR!
um livro que me fez chorar e chorar de rir. em algumas situações até na mesma página.
abaixo, alguns trechos pinçados...
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"criei um pequeno embalo, como para confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige."
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"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem; senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhes os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmóes, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante."
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"é só não nos tornarmos perigosos porque envelhecer é tornarmonos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestãveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas, como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestações do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais devíamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas mais profundas."
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"a laura morreu, pegaram em mim e puseram-no no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher."
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"um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas, quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e foz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, ta~do de frente à morte, não entremos em pânico."
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"o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."
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"eu precisava desse resto de solidão para aprender sobre este resto da companhia."
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"nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a quem um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas."
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Silêncios
O Artista - Oscar Melho Filme 2012
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Não se trata de resenha, nem muito menos crítica literária...
trata-se, apenas, de uma breve meditação a respeito do SILÊNCIO.
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Eu, que já nasci em tempos de barulhos, me admiro com o poder que o silêncio tem sobre mim. Com a sensação claustrofóbica dos barulhos internos que me ensurdecem em momentos de quase silêncio absoluto. Não acredito que os moradores das grandes metrópolis (como é meu caso) hoje em dia se possam dar ao luxo do "silêncio absoluto". É quase impossível. Há sempre um alarme de carro disparado, um vendedor ambulante, um grilo, um helicoptero, uma TV ao fundo, um menino empinando pipa, a música de algum carro, um cachorro.
Na última noite, mais uma noite entre um domingo e uma segunda que, por algum motivo, um doende maligno me rouba o sono, o quase silêncio da noite me faz pensar sobre o silêncio.
O silêncio dos amigos de infância, o silêncio da não concordância, o silêncio dos momentos fúnebres e dos momentos solenes, o silêncio interrompido, o silêncio do beijo, o silêncio do amigo distante, o silêncio do constrangimento, o silêncio do desejo....enfim...o silêncio.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Persuasão - Jane Austen
"Não posso mais ouvir em silêncio. Devo falhar-lhe com os meios que estão a meu alcance. Meu coração está dilacerado. Estou em estado de semiagonia, semiesperança. Não me diga que cheguei tarde demais, que sentimentos tão preciosos se foram para sempre. Ofereço-me uma vez mais com um coração ainda mais seu do que quando quase o partiu, há oito anos a meio. Não ouse dizer que um homem se esquece mais depressa do que uma mulher, que o amor dele conhece primeiro a morte. Nunca amei outra pessoa. Injusto posso ter sido, fraco e rancoroso posso ter sido, mas nunca inconstante. Apenas por sua causa eu viria a Bah. Apenas por sua causa penso e planejjo. Não percebeu tudo isso? Não foi capaz de compreender meus desejos? Eu não teria esperado sequer estes dez dias caso tivesse lido seus sentimentos, como acredito que deva ter interpretado os meus. Mal consifgo escrever. A cada instantes ouço algo que me angustia. Sua voz se abaixa, mas posso reconhecer os tons dessa voz mesmo quando se misturam aos demais. Boníssima, extraordinária criatura! Faz-nos justiça, sem dúvida. Acredita que existam a verdadeira afeição e constância entre os homens. Acredite serem mais ardentes, mais inalteráveis, em
F.W.
Preciso ir, incerto quanto ao meu destino. Mas voltarei aqui, ou me reunirei a seu grupo, o mais depressa possível. Uma palavra, um olhar, serão o basatne para que me decida a ir a casa de seu pai esta noite ou nunca."
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
De Verdade - Sandor Marai
"Em toda vida de verdade chega um momento em que mergulhamos numa paixão como se nos atirássemos nas cataratas do Niágra. E, naturalmente, sem colete salva-vidas. Não acredito nos amores que começam como uma excursão ao piquenique da vida, de mochila e com cantos alegres na mata ensolaradas...Sabe, o sentimento transbordante de "festejo" que permeia o início da maioria das relações humanas...Como ele é suspeito! A paixão não festeja. A força sombria que ao mesmo tempo cria e extermina o mundo não espera resposta de quem ela atinge, não pergunta se ele está bem, não se ocupa muito dos snetimentos humanos de reciprocidade. Dá tudo e exige tudo: a paixão inconcional cuja energia mais profunda é a própria vida e a morte."
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
O Estrangeiro - A peça
O Estrangeiro
Albert Camus
Sesc - Santo Amaro
Mais um momento especial que a vida nos dá de presente. Hoje, nos centavos contados, cabe um teatro popular, cabe um vinho com uma salada, cabe um papo de quem divide a vida...a vida toda.
Não há novidades que a gente possa contar um para o outro. Sabemos tudo e temos o poder até de ler nossos silêncios.
A vida nos pregou peças mas nos proporcionou tantas surpresas que, no frigir dos ovos, acho que ainda estamos no lucro.
De uma leitura conjunta, um monólogo dramaticamente iluminado...
... e assim segue nossa história ...
sábado, 24 de dezembro de 2011
Trocas
das trocas que a vida ensina:
o choro pelo leite
a poltrona solitária pelo sofá
o big mac pela salada
spielberg por wood alen
o dia pela noite
a cerveja pelo vinho tinto
o muito pelo melhor
a net pelo livro
qualquer coisa por um bom papo
a vivo pela nextel
de morena para loira
algumas verdades por um monte de mentiras
muito trabalho por pouco dinheiro
muito dinheiro por inutilidades
o certo pelo talvez
todas as certezas por dúvidas
o pink pelo preto
o ter pelo ser
o ser pelo estar
os planos pelo prazer
a força pela coragem
os sonhos por algumas realizações concretas
e várias frustrações
a espera pela saudade
alguma saudade por esquecimento
a praia pelo campo
a raiva pelo silêncio
a vontade pelo bom senso
crítica por tolerância
muitos amigos por bons
anabelas por scapins
futilidades por utilidades
maus humor por recolhimento
gritos por sussurros
ordens por conselhos
desistências por conquistas
debates por entendimento
separações por conciliações
muito tempo por pouco tempo
tecido sintético por algodão
descartas por reciclar
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
O meio da brochura
Tenho uma expectativa (otimista) de viver até os 80. Estou, portanto, chegando ao meio da brochura. Não sei se relacionado a esta constatação ou não, mas fato, tenho tido dias de tênue depressão (ela me cercando e eu dormindo para escapar dela).Folheando as que seriam então as 40 primeiras páginas não consido encontrar muitas que mereçam um post-it de marcação. Tive poucos momentos dignos de um post. E isso fica mais do que óbvio pela regularidade de postagens neste meu tão abandonado blog. A vida "das pessoas" sempre me parece tão mais interessante que a minha...
Levando em consideração o fato de que, as folhas entre os 20 e os 30 deveriam ter sido as mais agitadas, entro em pânico. Pois, a tendência é que as próximas sejam ainda mais irrelevantes.
Fiz poucas viagens, li poucos livros, não escrevi nenhum, só tive uma filha, nunca plantei uma árvore. Eta vidinha besta.
Tenho cerca de 100 "amigos" no meu facebook, com mais de 50 deles troquei menos de 50 palavras durante minha vida toda. Perdi amigos fantásticos pelo caminhar da vida. Deixei de ganhar vários também por falta de dedicação.
As fotos afixadas no mural do corredor me prendem a cada passada. As memórias dos momentos registrados vão sumindo aos poucos, e eu já não lembro de ter estado naquelas fotos. Os momentos já deixaram de existir pois deixaram de existir como lembrança pra mim. Se pudesse ser visual, minha imagem deveria ir sumindo das fotos conforme minha lembrança do momento fosse sumindo da minha memória. Muito triste essa constatação. A sensação de deixar de existir. Estive uma vez em Paris. Me sobraram tão poucas lembranças de lá. Alguns dias ensolarados. Caminhar sob os arcos da Rue de Rivoli apreciando a vista da fachada do Louvre à minha esquerda. Os jardins de Versalles, os anjos. Um diário de viagem de capa verde perdido em alguma caixa.
Uma sensação de vazio tem me assombrado. Sensação de estar perdendo minhas memórias. Sensação de uma vida de rotina besta que não está me dando chances de colecionar novas memórias.
Vejo as fotos de minha bebê Maria, que não existe mais e sofro também. Eu não tenho mais uma bebê. Ela não existe mais. Não senta mais no meu colo, não precisa mais de mim para se alimentar, nem para ter suas próprias opiniões, nem para pegar o elevador e ir até a casa da amiga. Aos poucos vai me deixando, como minhas memórias de Paris.
Meus pais também vão sumindo. Aos poucos vão deixando de ser pais para se tornarem, cada vez mais, filhos. Filhos a serem cuidados.
Meu reflexo no espelho do balcão da padaria hoje, denunciou dois grandes vincos no meu rosto além de olhos cansados. Uma imagem não exatamente animadora para um café da manhã.
Sigo meus dias de aflição tentando segurar entre os dedos lembranças que já não tenho mais. Não posso negar que estou triste e desanimada.
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