quarta-feira, 7 de março de 2012

Das coisas que me ganham!

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Me ganha a pessoa que senta do meu lado numa festa ou num samba (samba, do bom, antigo, me ganha) e, simplesmente, continua uma conversa. Aquele tipo de conversa de conhecidos de anos. Aquela que engata de algum caso (esquecido) de um passado que não lembramos de ter vivido.

A intimidade me ganha. Se puder falar alguns palavrões e fazer um pouco de piada a respeito de si mesmo, ainda melhor.

Me ganha quem limpa a tampa da latinha da cerveja pra mim. Já me ganhou quem sabe que só tomo cerveja na latinha. E que ela nunca pode ser Itaipava.

Me ganha quem canta o mesmo samba que eu. Me ganha também quem nem gosta de samba mas fica silencioso ao meu lado, curtindo meu prazer.

Me ganha quem sabe que minha pizza não pode ter catupiry, que meu temaki não pode ter cream cheese e que minha roupa nunca é amarela.

Me ganha gente que ouve. Que sabe esperar até o ponto final da frase. Gente que me dá feedback com movimentos leves de cabeça ou de olhar. Mas, se não concordar comigo, melhor. Me ganha quem sabe somar sua opinião à minha. Me ganha quem me deixa somar minha opinião à sua.

Me ganha quem me comenta suas leituras e me indica seus livros.

Me ganha quem me cumprimenta com abraço. Quem sabe escrever a grafia correta do meu tão complicado nome. Me ganha quem me chama de "querida", de "amiga" ou de "cuzona". Me ganha quem diz ter saudade de mim e nem precisa ser sincero. Me ganha quem me fala olhando nos olhos.

Me ganha quem me conta problemas cotidianos e crises conjugais. Me ganha quem diz que, mesmo que as coisas não estejam bem, elas irão melhorar.

Me ganha quem sofre e precisa da minha ajuda. Me ganha, pra sempre, quem pede meu socorro. Me ganha quem sabe fazer com que me sinta viva por saber fazer com que me sinta útil, quase imprescindível. Me ganha quem me pede ombro. Claro, também me ganha também quem me dá ombro. Me ganha quem sabe me dar broncas.

Me ganha quem tira o sapato na minha casa e se senta no chão. Quem sabe a história do meu relógio cuco, da minha sopeira e da minha poltrona de leitura.

Me ganha quem se dá o direito de se mostrar com defeitos para mim. Me ganha quem conta suas própria mazelas, seus planos frustrados, seus sonhos inatingíveis, seus amores não correspondidos, suas invejas, algum podre. Me ganha quem é tão imperfeito quanto eu.
Publicado originalmente em 10/10.

sexta-feira, 2 de março de 2012

2 de março de 1996

há 16 anos eu era uma adolescente tardia de 24 anos. tinha todas as certezas do mundo. a vida traçada numa planilha de excell com pequena margem percentual para variantes de insucesso.

naquela manhã de março, acordamos cedo, vestimos roupas despojadas e nos reunimos em frente a um juíz de paz num cartório do bairro. numa sala quente, com um buquet de flores de plástico e achando tudo muito engraçado, colocamos nossas assinaturas inseguras num contrato e partimos para nos preparar para a grande festa das nossas vidas.

enfurnada num salão de beleza junto com outras noivas neuróticas eu seguia o script. uma das noivas assistia apaixonada a um programa de vídeo clips onde o noivo, DJ, dedicaria a elas músicas românticas. outra, mais nova e de cabelos cuidadosamente cacheados, chorava decepcionada com o buquet. eu, me enchia de deliciosos pães de queijo e suco de laranja.

o vestido era uma versão pioneira de reciclagem. usado pela irmã três meses antes, tinha sido virado ao avesso, do lado onde o tecido era mais fosco, mais discreto. nessa superfície de segunda mão, foram pregadas quatro mil pérolas. tardes e tardes de um ritual familiar mágico regado a café e muita emoção, eu e minha mãe nas últimas confidência pré matrimoniais. metros e metros de linha cor de pérola. rendas cortadas em charmosos medalhões iriam decorar toda a barra que depois seria pisada pelos mais de 300 convidados.

uma macha vermelha de ousadia. um buquet de rosas vermelhas, compacto, seguro. lindo. um detalhe surpreendente num roteiro de vida tão previsível.

conduzida pelos braços carinhos de um pai com olhos emocionados, ao abrir do grande portal, um corredor interminável margeado de muitos rostos conhecidos e carinhosos. em passos seguros, como quem caminha para o futuro, desenhamos nossos passos no grande tapete vermelho e entreguei minha testa ao beijo do homem que seria, para sempre, o homem da minha vida.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mae



"a máquina de  fazer espanhóis"
Valter Hugo Mae

num primeiro namoro a página assusta. não há parágrafos, nem a letra maiúscula que anuncia o início da sentença. não há dois pontos, travessão na outra linha.
ENCANTADOR!
um livro que me fez chorar e chorar de rir. em algumas situações até na mesma página.
abaixo, alguns trechos pinçados...
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"criei um pequeno embalo, como para confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige."
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"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo, o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem; senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhes os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmóes, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante."
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"é só não nos tornarmos  perigosos porque envelhecer é tornarmonos vulneráveis e nada valentes, pelo que enlouquecemos um bocado e somos só como feras muito grandes sem ossos, metidas dentro de sacos de pele imprestãveis que já não servem para nos impor verticalidade nem nas mais pequenas batalhas, como faria falta ferrarmos toda a gente e vingarmo-nos do mundo por manter as primaveras e a subitamente estúpida variedade das espécies e as manifestações do mar e a expectativa do calor e a extensão dos campos e as putas das flores e das arvorezinhas cheias de passarinhos cantantes aos quais devíamos torcer o pescoço para nunca mais interferirem com as nossas feridas mais profundas."
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"a laura morreu, pegaram em mim e puseram-no no lar com dois sacos de roupa e um álbum de fotografias. foi o que fizeram. depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher."
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"um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas, quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e foz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem-visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, ta~do de frente à morte, não entremos em pânico."
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"o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."
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"eu precisava desse resto de solidão para aprender sobre este resto da companhia."
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"nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a quem um homem chega perante outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas."

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Silêncios

O Artista - Oscar Melho Filme 2012
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Não se trata de resenha, nem muito menos crítica literária...
trata-se, apenas,  de uma breve meditação a respeito do SILÊNCIO.
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Eu, que já nasci em tempos de barulhos, me admiro com o poder que o silêncio tem sobre mim. Com a sensação claustrofóbica dos barulhos internos que me ensurdecem em momentos de quase silêncio absoluto. Não acredito que os moradores das grandes metrópolis (como é meu caso) hoje em dia se possam dar ao luxo do "silêncio absoluto". É quase impossível. Há sempre um alarme de carro disparado, um vendedor ambulante, um grilo, um helicoptero, uma TV ao fundo, um menino empinando pipa, a música de algum carro, um cachorro.
Na última noite, mais uma noite entre um domingo e uma segunda que, por algum motivo, um doende maligno me rouba o sono, o quase silêncio da noite me faz pensar sobre o silêncio.
O silêncio dos amigos de infância, o silêncio da não concordância, o silêncio dos momentos fúnebres e dos momentos solenes, o silêncio interrompido, o silêncio do beijo, o silêncio do amigo distante, o silêncio do constrangimento, o silêncio do desejo....enfim...o silêncio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Persuasão - Jane Austen


"Não posso mais ouvir em silêncio. Devo falhar-lhe com os meios que estão a meu alcance. Meu coração está dilacerado. Estou em estado de semiagonia, semiesperança. Não me diga que cheguei tarde demais, que sentimentos tão preciosos se foram para sempre. Ofereço-me uma vez mais com um coração ainda mais seu do que quando quase o partiu, há oito anos a meio. Não ouse dizer que um homem se esquece mais depressa do que uma mulher, que o amor dele conhece primeiro a morte. Nunca amei outra pessoa. Injusto posso ter sido, fraco e rancoroso posso ter sido, mas nunca inconstante. Apenas por sua causa eu viria a Bah. Apenas por sua causa penso e planejjo. Não percebeu tudo isso? Não foi capaz de compreender meus desejos? Eu não teria esperado sequer estes dez dias caso tivesse lido seus sentimentos, como acredito que deva ter interpretado os meus. Mal consifgo escrever. A cada instantes ouço algo que me angustia. Sua voz se abaixa, mas posso reconhecer os tons dessa voz mesmo quando se misturam aos demais. Boníssima, extraordinária criatura! Faz-nos justiça, sem dúvida. Acredita que existam a verdadeira afeição e constância entre os homens. Acredite serem mais ardentes, mais inalteráveis, em     
                                                                                                                                                       F.W.

Preciso ir, incerto quanto ao meu destino. Mas voltarei aqui, ou me reunirei a seu grupo, o mais depressa possível. Uma palavra, um olhar, serão o basatne para que me decida a ir a casa de seu pai esta noite ou nunca."

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

De Verdade - Sandor Marai


"Em toda vida de verdade chega um momento em que mergulhamos numa paixão como se nos atirássemos nas cataratas do Niágra. E, naturalmente, sem colete salva-vidas. Não acredito nos amores que começam como uma excursão ao piquenique da vida, de mochila e com cantos alegres na mata ensolaradas...Sabe, o sentimento transbordante de "festejo" que permeia o início da maioria das relações humanas...Como ele é suspeito! A paixão não festeja. A força sombria que ao mesmo tempo cria e extermina o mundo não espera resposta de quem ela atinge, não pergunta se ele está bem, não se ocupa muito dos snetimentos humanos de reciprocidade. Dá tudo e exige tudo: a paixão inconcional cuja energia mais profunda é a própria vida e a morte."

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Estrangeiro - A peça

O Estrangeiro
Albert Camus
Sesc - Santo Amaro

Mais um momento especial que a vida nos dá de presente. Hoje, nos centavos contados, cabe um teatro popular, cabe um vinho com uma salada, cabe um papo de quem divide a vida...a vida toda.
Não há novidades que a gente possa contar um para o outro. Sabemos tudo e temos o poder até de ler nossos silêncios.
A vida nos pregou peças mas nos proporcionou tantas surpresas que, no frigir dos ovos, acho que ainda estamos no lucro.
De uma leitura conjunta, um monólogo dramaticamente iluminado...
... e assim segue nossa história ...

sábado, 24 de dezembro de 2011

Trocas

das trocas que a vida ensina:
o choro pelo leite
a poltrona solitária pelo sofá
o big mac pela salada
spielberg por wood alen
o dia pela noite
a cerveja pelo vinho tinto
o muito pelo melhor
a net pelo livro
qualquer coisa por um bom papo
a vivo pela nextel
de morena para loira
algumas verdades por um monte de mentiras
muito trabalho por pouco dinheiro
muito dinheiro por inutilidades
o certo pelo talvez
todas as certezas por dúvidas
o pink pelo preto
o ter pelo ser
o ser pelo estar
os planos pelo prazer
a força pela coragem
os sonhos por algumas realizações concretas
e várias frustrações
a espera pela saudade
alguma saudade por esquecimento
a praia pelo campo
a raiva pelo silêncio
a vontade pelo bom senso
crítica por tolerância
muitos amigos por bons
anabelas por scapins
futilidades por utilidades
maus humor por recolhimento
gritos por sussurros
ordens por conselhos
desistências por conquistas
debates por entendimento
separações por conciliações
muito tempo por pouco tempo
tecido sintético por algodão
descartas por reciclar

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O meio da brochura

Tenho uma expectativa (otimista) de viver até os 80. Estou, portanto, chegando ao meio da brochura. Não sei se relacionado a esta constatação ou não, mas fato, tenho tido dias de tênue depressão (ela me cercando e eu dormindo para escapar dela).
Folheando as que seriam então as 40 primeiras páginas não consido encontrar muitas que mereçam um post-it de marcação. Tive poucos momentos dignos de um post. E isso fica mais do que óbvio pela regularidade de postagens neste meu tão abandonado blog. A vida "das pessoas" sempre me parece tão mais interessante que a minha...
Levando em consideração o fato de que, as folhas entre os 20 e os 30 deveriam ter sido as mais agitadas, entro em pânico. Pois, a tendência é que as próximas sejam ainda mais irrelevantes.
Fiz poucas viagens, li poucos livros, não escrevi nenhum, só tive uma filha, nunca plantei uma árvore. Eta vidinha besta.
Tenho cerca de 100 "amigos" no meu facebook, com mais de 50 deles troquei menos de 50 palavras durante minha vida toda. Perdi amigos fantásticos pelo caminhar da vida. Deixei de ganhar vários também por falta de dedicação.
As fotos afixadas no mural do corredor me prendem a cada passada. As memórias dos momentos registrados vão sumindo aos poucos, e eu já não lembro de ter estado naquelas fotos. Os momentos já deixaram de existir pois deixaram de existir como lembrança pra mim. Se pudesse ser visual, minha imagem deveria ir sumindo das fotos conforme minha lembrança do momento fosse sumindo da minha memória. Muito triste essa constatação. A sensação de deixar de existir. Estive uma vez em Paris. Me sobraram tão poucas lembranças de lá. Alguns dias ensolarados. Caminhar sob os arcos da Rue de Rivoli apreciando a vista da fachada do Louvre à minha esquerda. Os jardins de Versalles, os anjos. Um diário de viagem de capa verde perdido em alguma caixa.
Uma sensação de vazio tem me assombrado. Sensação de estar perdendo minhas memórias. Sensação de uma vida de rotina besta que não está me dando chances de colecionar novas memórias.
Vejo as fotos de minha bebê Maria, que não existe mais e sofro também. Eu não tenho mais uma bebê. Ela não existe mais. Não senta mais no meu colo, não precisa mais de mim para se alimentar, nem para ter suas próprias opiniões, nem para pegar o elevador e ir até a casa da amiga. Aos poucos vai me deixando, como minhas memórias de Paris.
Meus pais também vão sumindo. Aos poucos vão deixando de ser pais para se tornarem, cada vez mais, filhos. Filhos a serem cuidados.
Meu reflexo no espelho do balcão da padaria hoje, denunciou dois grandes vincos no meu rosto além de olhos cansados. Uma imagem não exatamente animadora para um café da manhã.
Sigo meus dias de aflição tentando segurar entre os dedos lembranças que já não tenho mais. Não posso negar que estou triste e desanimada.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Naquela época

cinema não era numerado
telefone não tinha teclado
noiva era virgem
são paulo tinha horizonte
açucar não era no saquinho
máquina era com filme
café no coador
chiclete de hortelã
a rua não tinha asfalto
o bairro não tinha prédio
feijão era a granel

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Endoscopia na Alma!

Hoje fiz uma endoscopia. Aparentemente, sobrou sentimento e ele teria se alojado em úlceras nas paredes do meu estômago. Quase nunca dói. Mas quando dói, é de doer. Apesar de não doer muito, me causa sensação de "fartura". Talvez como sentimento, que quando é demais, excede. Esporadicamente também tenho refluxos. Refluxos de sentimentos. Os que não me caem bem, voltam. E, esses que voltam, voltam azedos.
Tirei o dia para pensar em sentimentos. Sentimentos de uma forma geral. Os bons, os ruins, os que nos afetam e os que causamos.
De repente, me caiu na testa a responsabilidade pelos sentimentos que provoco. Parei por um minuto e do alto da minha inteligência percebi que causo sentimentos às pessoas. E causando-os, afeto suas vidas de forma definitiva.

O que eu não sabia antes...

antes eu não sabia que se podia controlar o tempo de cozimento dos legumes através do tamanho do cubo. antes eu tinha cáries nos meus próprios dentes, mas os dentes eram meus. antes eu tinha a ilusão de ter algumas certezas. antes eu andava na linha, seguia a cartilha, não ousava contestar nem levantar a voz. eu tinha mais cachos nos cabelos, menos celulite e mais disposiçao para jogos. antes eu não sabia que o aço da faca tirava o cheiro do alho da mão. antes eu não tinha Maria. antes eu era sozinha. antes eu não acreditava que as coisas sempre têm solução e que, nem sempre, a solução chega no momento que a gente deseja. eu era míope e não sabia quem era Baudelaire ou Bukowski. eu era apaixonada pelo Fabio Jr. antes eu não tinha cicatriz e tinha vesícula. eu não bebia e não comia brócolis e tinha medo da morte. eu tinha medo de bicho de pena e ainda tenho. antes eu achava que meu pai era um herói e que tinha todas as respostas que eu pudesse precisar. eu acreditava que o amor durava pra sempre e que as pessoas não precisam chorar nunca. eu não tinha lido Flaubert. antes eu não sabia dirigir, andava a pé e tomava mais sorvete. antes eu gostava de banho de chuva e de café com leite.  eu tocava violão, só 4 músicas, mas eu tocava. antes eu achava que seria diferente, que seria mais fácil, mas não foi. antes eu achei que você fosse o amor da minha vida e você realmente é ainda o amor da minha vida. antes eu achava que saudade passava. eu achava que podia substituir as pessoas, mas estava enganada. antes eu doava meus livros, hoje sou apegada a eles pois eles contém um pouco de mim. antes eu dava importância a o que não era importante, hoje é tudo diferente. eu dizia mais "nãos" do que "sins". antes eu usava mais vestidos e menos superlativos. eu tinha mais sonhos, menos lembranças. antes eu não tinha TPM.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Estrangeiro - Albert Camus


sobre Salamano e seu velho cachorro...

"Há oito anos que não mudam de itinerário. Eles podem ser vistos ao longo da rue de Lyon, o cão puxando pelo homem até o velho Salamano tropeçar. Então, ele bate no cachorro e xinga. O cão rasteja de medo e se deixa arrastar. Nesse momento, é a vez de o velho puxar. Quando o cão se esquece, torna a arrastar o dono, e é outra vez surrado e xingado. Ficam, então, os dois na calçada, e se olham: o cão, com terror, o homem, com ódio. É assim todos os dias."
(Albert Camus - O estrangeiro)
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O terceiro livro lido no Nosso Clube de Leitura.
Niilismo, talvez. A discussão acalorou-se. Meursault era culpado? Inocente? Ou muito pelo contrário?
 Mas o que importa afinal?
O que a obra me diz é que, "nada importa", "tanto faz" a gente chega, parte e quase ninguem nota, quase ninguem sente a nossa falta.
Muito pouco do que a gente faz, faz alguma diferença no mundo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Caminhada!


Assim como Clarissa, que quis ela mesma comprar as flores, eu quis, eu mesma, entregar meus brindes de Natal. Andando a pé a gente vê coisas que não vê através do vidro fumê...barulhos internos.

Uma cadeira de rodas numa varanda gourmet. Será que ele (será ele?) se curou e guardou a cadeira na varanda como uma triste recordação? Será que era apenas uma deficiência provisória? Talvez um acidente de carro que lhe rompeu os tendões do joelho esquerdo. Será que ele morreu e a mãe inconformada guarda na cadeira a presença do filho?

Um moça morena de cabelos vermelhos e trançados passeando com um labrador chocolate. Os pêlos do cachorro tinham uma cor assustadoramente parecida com os cabelos da morena. O cachorro fez cocô. Uma montanha gigante de cocô e a morena de cabelos avermelhados recolheu o cocô. Fiquei pensando o que faria com ele. Talvez colocasse no almoço do patrão...pura vingança.

Caminhando lânguida numa calçada esburacada, uma loira alta. Altíssima e olhos pintados de preto. Muito pintados e muito preto. Tinha os cabelos muito loiros presos num coque mal feito no alto da cabeça. Usava shorts muito curtíssimos e uma xale de lã muito preta. Não consegui saber se ela estava com frio ou com calor.

Fui no 213, 8 andar e me mandaram ir no 195, 6 andar. Cadastro? RG. CPF na nota?

Vi duas meninas com os rostos colados numa janela. Pareciam irmãs, talvez gêmeas pela proximidade da idade. Ou talvez colegas do colégio bilingue. Elas me olharam, eu retribuí o olhar. Uma era uma princesa amarela a outra uma princesa azul. Estavam de batom.

Uma moça pequena, com cara de sono passeava com um gato no colo. Talvez ela fosse vocalista de uma banda de música paulista. Talvez tivesse um nome com várias vogais.  Talvez tenha ficado até as 4 horas da madrugada tocando na Augusta e por isso estava com sono. Ou talvez não fosse cara de sono, talvez ela tivesse chorado a noite inteira por causa do namorado que mora na Austrália. Talvez ele não volte.

Uma senhora que saía esbaforiga pela porta automática de um shopping com piso de granito. Carregava duas sacolas tamanho gigante. As sacolas tinham estampa de flores feitas de tecido e botões. Talvez fossem presentes para suas colegas de pilates. Ou talvez para as noras que ela odeia mas que precisa agradar para manter as aparências dos almoços de domingo.

Vi um time feminino da Dinamarca. Não sei do que era o time. Elas não tinham joelheiras portanto acredito que não era voley. Todas elas eram muito loiras, muito brancas e muito falantes. Vestiam roupas vermelhas e sorriam.

Estranhei uma moça linda sentada num ponto de taxi. Ela usava um coleta escrito TAXI e tinha uma tatuagem de borboleta no tornozelo esquerdo. Usava Melissas e eu lembrei da minha infância quando eu usava Melissas.

Numa padaria apertada peguei, direto na geladeira, uma Fanta Laranja. No caixa, uma senhora portuguesa com grandes brincos me disse que era R$ 4,90, depois se desculpou constrangida dizendo que havia se enganado que era apenas R$ 3,90. E que 4,90 era o preço do Gatorade. Fiquei feliz por ter escolhido a Fanta e não o Gatorade. Não gosto de Gatorade de Laranja. Só de limão. Mas dizem que faz mal para quem tem tendência a ter cálculo renal. Eu já tive cálculo renal. Dói.

Tem cadastro? RG por favor. Qual andar? Falar com quem?
CPF na nota?

Percebi que todo mundo andava olhando seus IPhones, IPads, Iqualquer coisa. Muitos carregavam envelopes. Alguns malas de rodinha. Alguns simplesmente andavam de cabeça baixa. Presos nos seus barulhos internos. Eu caminhava com meus sapatos baixos e muito calor.

Um grupo de freiras barulhentas atravessava a rua. Elas estavam de mãos dadas. Seriam fugitivas da Irmã Bernadete?

Muitos motoboys carregavam sacolas de brindes. Como eu.

Uma kombi entregava flores numa loja. A loja não era de flores. Era de óculos. Não vi para quem eram as flores. Talvez para a Ana. Flores enviadas pelo Marcelo em agradecimento ao espetacular jantar de ontem. Ou  talvez fossem para a Bia, enviadas pelo Guto. Um pedido de desculpas. Ou talvez para o Flávio, enviadas pelo Rogério, com uma linda declaração de amor. Definitivamente as flores tinham cheiro de romance. Estavam embaladas em papel violeta.

Aline, do 195, 6 andar nao quis me conhecer. Já me acostumei a este tipo de rejeição e a todos os outros também. As vezes sinto um frio na nuca, mas passa. Sempre passa.

Vi uma pomba agonizando no canteiro central. Virei o rosto. Ouvi dizer que pombas são monogâmicas. Fiquei compadecida pelo seu companheiro. Deve ser triste ser um pombo solitário. Envelhecer sozinho numa cidade como São Paulo.

Uma moça, muito baixa e vestida de macacão cinza perguntou se eu era de escorpião. Eu respondi que nao. Ela falou que o marido dela era, mas que era moço bom.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Sonho de um Homem Ridículo - Dostoievski

"Os sonhos, ao que parece, move-os não a razão, mas o desejo, não a cabeça, mas o coração, e no entanto que coisas ardilosas produziu às vezes a minha razão em sonho!"

sábado, 10 de dezembro de 2011

Rugas!

quando nada está acontecendo
noemi jaffe
martins fontes

um livrinho (de conteúdo grandioso) que me ganhou no primeiro passar d'olhos...

rugas
"parece que o ruim de envelhecer são as rugas. elas são ruins mesmo. preferia não tê-las. mesmo assim, pensando à distância, elas têm  alguma coisa de interessante: são como anotações de um livro. uma pessoa sem rugas é ilegível. mas, além disso, envelhecer tem tantas vantagens: é como se não fosse mais tão necessário ir em busca das coisas, internas ou externas. chegamos num meio do caminho, em que as coisas e você  estão presentes, consumadas, razoavelmente compreendidas e agora só basta experimentá-las, até o ponto possível. não precisa ser até o fim, mas já se conhece o caminho e o começo.um certo caminho andado. é bom ver os filhos grandes, a mesa posta, os problemas menos graves e, às vezes, que a maior preocupação do dia seja: onde é que fui colocar os óculos?"

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Nosso Clube de Leitura!

Há nos procurava participar de um clube de leitura. Um grupo que pudesse botar fermento nos meus pensamentos. Fazer mexer a massa. Fazer a coisa crescer.

Nos últimos meses, devido a desvios que a vida nos apresenta e que a gente tem coragem de trilhar, acabei caindo em um - e o melhor.

Num grupo, a maioria meninas, a coisa brota, cresce e como dá flores. Amando.
Já foram 2...outros virão!



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Literatura!

enveredando-me, ainda em passos inseguros, nos meandros da literatura, já consigo perceber que o que me traz água a boca e lágrimas aos olhos, são sempre os menores detalhes. os detalhes que moram na simplicidade. são as pitadas de tempero amarelo. a jaboticaba presa no tronco da árvore que faz sombra à mesa do café. a orelha dobrada da página que diz tudo. a xícara de ágatha. os cachos definidos desenhando o travesseiro. o pedido de conselho. a vela em castiçal colorido sobre a mesa do jantar. o croché da barra do pano de prato. o aroma de canela que dança na sala no final da tarde. a roda das novas amigas. o sol por trás das árvores na janela da sala. dançando com Flaubert, Machado, Virgínia e Clarice, percebo-me uma personagem longe dos grandes heróis e cada vez mais próxima das grandes simplicidades....do simplesmente indispensável...das alegrias simples, das simples afeições...do simples sentimento que muda tudo e que, ao mesmo tempo, torna tudo tão simples.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dançando com Lobos!

Sonhei com lobos. Eram 3 jaulas: uma com um lobo jovem; uma com um casal de lobos adultos; uma com um lobo velho.

Não lembro de nunca antes na minha vida ter sonhado com lobos. No meu sonho, eu tinha que protegê-los, ao mesmo tempo em que era protegida por eles. Eles eram pequenos e grandes. Eu era pequena e grande no meu sonho. Um deles era pequeno e indefeso. Dois eram grandes, um casal. O terceiro, um lobo velho, doente.

Consegui tirar o pequeno da sua jaula arrombando-a com uma chave de fenda de ponta redonda e enferrujada. O pequeno, ao sair da jaula, tornou-se grande. Apresentando-o a alguém, o vi crescer e ficar belo. Assim, como mágica. Foi crescendo, ficando bonito e "cheio de vida". Apesar do meu esforço desesperado, não conseguia encontrar quem pudesse me ajudar a abrir a jaula do casal adulto. Eles permaneciam lá. Deitados, cansados, com aparência doente. A chave que usei para abrir a jaula do menor não servia para abrir a jaula dos maiores. Eles me pediam socorro com olhar sofrido. Eu me desesperava no sonho, pois sabia que precisava da ajuda deles.

Apesar de, no sonho, ter consciência da existência do lobo velho, optei por me dedicar a salvar os mais jovens. No meu íntimo sofria pelos mais velhos, mas a minha razão pedia para defender os adultos, pois eram fortes e dois. Racionalmente eles me dariam mais proteção.

No sonho eu vestia a roupa que pretendia vestir hoje. Isso me deixava aflita. O tempo todo pensava que sujaria a roupa e como iria poder trabalhar toda suja?

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Eu sou urgente!

Eu sou urgente. Inesperada. A vida não permite que eu seja tudo o que eu quero ser. O dia me tolhe os vôos. Me desdobro em duas. Me multiplico em desejos frustrados. Duas fantasias, duas expectativas, duas esperas. Quinze para as duas ou duas e meia. Duas vírgulas sem ponto final. Na pressa, corro. No correr prendo a manda da blusa na maçaneta. Perco meus sonhos no congestionamento da vida real. Rasgo a blusa e mato o sonho. Sigo em frente. Segunda marcha. Quase lenta. Eu sou urgente, surpreendentemente previsível. Sou simples. Clara. Claro.

domingo, 30 de outubro de 2011

Falando muito, dizendo pouco!

Queria ter um milhão de palavras ou apenas uma que dizesse o que eu não quero dizer. de dentro do meu silêncio, me parece, que tenho falado muito e, efetivamente, dito muito pouco. Feito menos ainda. incômoda sensação. Perda de tempo e disperdício de palavras. Hoje, brinco melhor com as palavras. Bordo-as, combino-as. Faço com que dancem ao meu bel prazer. Nesta dança, muitas vezes perco-me. Um perder-se bom. Como estar girando sendo segura pelas mãos da mãe. Um tontear que desnorteia mas é seguro. Hoje sou mil palavras, como se estivessem toda a me sufocar. Não há sentido em falar porque não há o que dizer e, o que há, não deve ser dito. Deve-se silenciar. Fato incontestável é que todo texto tem um fim e que, a evidência desse fim, torna tudo sem sentido. Um trovador solitário sem o que comunicar, nem a quem, nem porque. Cantando segredos surdos. Sigo, feito poesia concreta de palavras salpicadas umas sobre as outras. E só.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Clarissa....

"Não, agora nunca mais diria, de ninguém neste mundo, que eram isto ou aquilo. Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava como um navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fo...sse. Não que se julgasse inteligente, ou muito fora do comum. Nem podia saber como tinha atravessado a vida com os poucos dedos de conhecimento que lhe dera Fraulein Daniels. Não sabia nada; nem línguas, nem história; raramente lia um livro agora, exceto memórias, na cama; mas como a absorvia tudo aquilo, os carros passando; e não diria de Peter, não diria de si mesma: sou isso, sou aquilo." (Mrs Dalloway - Virgínia Woolf)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Descobrindo-me poeta!

Há alguns dias um amigo me disse que o que eu faço é POESIA. Desde então não caibo em mim, toda prosa e poesia. Montada em versos, vejo cenas do meu dia como estrofes que se exibem para minha exclusiva apreciação. Tudo virou poesia desde então. Chorei poesia ao ver Maria caminhando de All Star preto em sentido ao portão da escola. Espiei poesia através da janela azul bebê. Vi poesia no capacete amarelo do operário saindo do boeiro da avenida. Pingou poesia no guarda chuva de borboletas. A poesia estava pintada em pequenas bolinhas negras na bandeija de jaboticabas da feira livre. Enquadrei poesia no Sol nascente da janela da sala de jantar. Cheirei poesia no bolinho de chuva da cozinha amarela da minha mãe. Toquei na poesia dos cachos que o cabelo da Maria pintam na minha vida. Degustei poesia no café expresso com pauzinho de canela. Suspiro poesia o tempo todo. Com paz no coração cheguei a simples conclusão que ela, a poesia, sempre esteve aqui, só não sabia que ela se chamava assim. Obrigada ao amigo: @AndeMeireles

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sem sentido!

Hoje acordar me pareceu sem sentido. O banho quente com o sabonete verde me pareceu sem sentido. Sem sentido a echarpe que escolhi, pois nem frio faz. Não vi sentido algum em tomar o café expresso serviço pelo novo atendendente da loja de conveniência. Não vi sentido ou conveniência nisso. O caminho, hoje, não fez sentido. Não fez sentido a rua que mudou de mão e que tornou o meu caminho tão mais longo e engarrafado. Hoje, as músicas que tocaram desde cedo no rádio do carro não fizeram sentido algum. O caminho até o Largo do Socorro não fez sentido. Sempre perco meu sentido quando vou ao Largo do Socorro, aquele lugar é, por si só, sem sentido. Tentei ser educada com a recepcionista da grande empresa multinacional, onde todos têm malas de rodinha, mas ela não viu muito sentido no meu sorriso comercial. Hoje os grandes picups fizeram ainda menos sentido pra mim. A reunião, com a loira com olhos pintados de verde e mala de rodinhas, não fez o menor sentido. Também não fizeram sentido as solicitações dela que, infelizmente, terei que atender, fazendo sentido ou não. Hoje o sol não está me fazendo muito sentido. Não faz sentido o que digo hoje. A ligação do amigo, que deveria fazer sentido, hoje não fez. Hoje estou sem sentido. Ser sem sentido pode ser bom. Pode ser bom não ter sentido em não sentir.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O que é Poesia?

O que é poesia afinal?
...para mim...
poesia é o vestido flor da menina de trança
a fila de formigas no algo do muro caiado
o pauzinho de canela no café
a janela com floreira de violeta
o cacho da Maria desenhando o travesseiro
a meia taça de vinho tinto
o gesto de afastar uma mecha de cabelo do meu rosto
o post it colado para me lembrar do amor
a flor bordada no travesseiro
a saudade que não tem solução
a entrelinha e a reticência
a metáfora que grita
a alameda arborizada no meio da cidade
o gosto de fazer um novo amigo
o Moleskine de capa vermelha
o almoço de domingo
o saco de mexerica
o azul do papel que envolve a maçã
o fim de tarde com brisa de mar
o olhar da despedida
o seu perfume no cinto de segurança
o abraço da chegada
a dedicatória no livro de Vinícius
a menina de guarda-chuva cor de rosa
a capa da joaninha
a mesa sob a jaboticabeira
o vaso com a flor solitária
a cera escorrendo da vela branca
o relógio antigo sobre a cristaleira
o sorriso secreto
a boneca de pano
a cicatriz da chegada dela
o desenho em guache sob o vidro
beijar fazendo amor
chorar quietinho
sentir falta sem saber do que
o doce de abóbora com cravo
o vapor da panela na janela
o sal que nasce atrás dos eucaliptos
.....
e um tantinho de coisas mais!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Vida!

porque eu simplesmente adoro que a nossa vida seja temperada com mel e pimenta.
que você me olho com olhos de desejo todas as vezes que me vê nua.
que me abrace no meio do sexo e me diga que sou a mulher da sua vida e
que é para sempre.
agora, por que um texto desses e uma xícara de café com mini-suspirinhos?
sei lá
mas Freud deve saber!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A insustentável leveza...

'Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética e que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar marca, por efêmera que fosse, nessa zona do cérebro dele. Tereza ocupava como déspota sua memória poética e dela varrera todos os vestígios das outras mulhres. Não era justo porque, por exemploo, a jovem com quem fizera amor no tapete durante a tempestada não era menos digna de poesia do que Tereza. "Feche os olhos, segure meus quadris, aperte-me com força!" Não podia suportar que Tomas ficasse com os olhos abertos, atentos e perscrutadores durante o amor, e que seu corpo, ligeriamente supenso acima do dela, não se colasse à sua pele. Não queria que ele a estudasse. Queria levá-lo na onda de encantamento em que só se pode entrar com os olhos fechados. Recusava-se a ficar de quatro, pois nessa posição seus corpos mal se tocavam e ele poddia observa-la a uma distância de quase cinquenta centímetros. Destestava esse distanciamento. Queria se confundir com ele. Por isso lhe afirmava obstinadamente, olhando nos seus solhos, que não tinha gozado, ainda que o taperte ficasse molhado com seu orgasmo: "Não procuro o gozo, procuro a felicidade, e o gozo sem felicidade não e gozo. " Em outras palavras, ela batia na porta de sua memória poética. Mas a porta estava fechada. Não havia lugar para ela na memória poética de Tomas. Só havia lugar para ela no tapete. ' (A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Grande e muito pequena!

Não se iluda, você não me alcança. Nem eu mesma sou capaz. Não sou capaz de ser, o que sou capaz de ser. Sou mais do que acredito. Menos do que consigo. Sou grande e pequena. Mãe e filha. Não se iluda. Você não vê o horizonte de mim. Vou além daquela montanha. Sou além desse poema bobo. Sou rascunho. Imperfeita, massante, frágil, falsa. Fraude de ser. Não se iluda. Eu te engano. Eu me engano. E sigo vivendo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sentimento libertador!

Neste momento pouso na página com metáforas pobres. Não serei compreendida, nem compreenderei. Estou em tempos de silêncios, de silenciosas paisagens internas. Algumas tempestadas de mim intercaladas de momentos de estranha calmaria. Sou tardes de verão. Entre tempestades e arcos-íris. Deito-me nas minhas dúvidas. Descubro a delícia de degustar lentamente a calda doce das minhas incertezas. Colher de chá que é pra fazer a degustação durar. Esqueço no fundo do armário minhas certezas amareladas de tempo. Espio de longe e de longe já não me parecem tão certas assim. Talvez ação do tempo que castiga tudo, talvez ângulo de visão. Ou talvez seja minha alma que, tardiamente, tenha resolvido vestir a armadura da insanidade. A coragem me cai bem afinal. Levanta minha sombrancelha. De óculos escuros e echarpes posso tudo. Conquisto o mundo. Lavo a louça acumulada na pia. Sou eu no espelho? Vejo lampejos de mim. Lampejos de uma verdade que fui um dia. Mas o reflexo já mudou. Não sou mais o que era ao meu olhar. O olhar o reflexo me fez outra. Ver o reflexo me transformou. Não sou mais aquela, tampouco agora sei quem sou.