quinta-feira, 14 de novembro de 2019

não lembro de esquecer


A tinta que escapa do saco de lixo e cai na calçada lembra.
A poltrona vazia lembra
O vídeo lembra.
O samba lembra.
O bolinho de couve-flor lembra.
A caixa dos remédios lembra.
A roupa de cama que ficou sem par lembra.
Os chapéus lembram.
Os livros encadernados elegantemente com capa dura preta lembram.
O carro parado lembra que andou.
O silêncio lembra que você cantou.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

vocês não existe mais


Há pouco tempo, pouco mesmo, vi vocês dois entrando no sacolão.
Quando vi o carro, quase desviei, temendo a cobrança do tempo que neguei a vocês
Mas segui.
Vi que os dois desceram do carro, rindo.
Uma conversa animada embalava a vida.
Ontem, a presença do casal grisalho me ofendeu no mesmo estacionamento.
Era justo que fossem vocês, mas "vocês" não existe mais.
Senti, mais uma vez, que tenho menos que os outros.
Agora, também, menos pai
Me senti ofendida pela vida do casal de passos inseguros que dividiam a pouca força pelas sacolas.
Imaginei a sopa que tomariam no fim da quinta solitária.
E que talvez os filhos, já distantes, ligassem com alguma desculpa para não estar lá.
Ou que talvez nem ligassem e o prato a mais da sopa esperançosa sobrasse no fundo da panela.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Tenho pensado na morte


Tenho pensado na morte
Na morte que não aceita réplica
Na morte covarde e ditadora
Na morte que invade no início da madrugada
Na morte que não permite futuro
Na morte que deixa um infinito de passados
Tenho pensado na morte
Na morte que deixou sua poltrona vazia
Na morte que deixou sua digital no vidro do carro
Na morte que deixou a tomografia lacrada
Na morte que deixou irônicos remédios sem sucesso
Na morte que deixou seu whatsaap sem acesso
Que deixou, como sempre deixa, um pouco de culpa
Na morte que não responde perguntas
Na morte silenciosa
Na morte que grita silêncios
Tenho dormido e acordado mortes
Ressignificado mortes
Tenho pensado em sua morte
Mas tenho pensado também em sua vida